segunda-feira, 29 de outubro de 2012

DIA DE TODOS OS SANTOS E FINADOS NO DAIME.

Companheiros finados de Mestre trab11
DIA DE TODOS OS SANTOS E FINADOS NO DAIME.
O Mestre Irineu desde que começou o Daime em Rio Branco fazia uma sessão que iniciava no dia de Todos os Santos e terminava no dia de Finados. Essa data do calendário do Daime ficou conhecida como o dia de Todos Santos e dia de Finados. Depois da morte do Mestre Irineu, muitos passaram a se referir a essa data só como dia de Finados. No final da década de 1960 depois que seus discípulos companheiros de maior expressão já tinham morrido, ele sugeriu cantar os hinários deles nessa data. Assim no dia 1 para o dia 2 de Novembro são cantados e bailados os hinários dos companheiros do Mestre Irineu: Germano Guilherme, João Pereira, Maria Damião, Antônio Gomes e os hinos novos do Mestre Irineu. Igualmente aos outros festejos inicia-se o terço as 18:00 horas, a distribuição as 18:45 e o baile as 19:00 horas. Dá-se viva até antes da meia noite. Depois da meia noite o baile segue sem vivas, pois, já é dia de finados. Ao final do baile é realizada a Santa Missa (sem mesários e ninguém na mesa) que inicia com a reza do Terço. Após a Missa muitos dos seguidores de Mestre Irineu se dirigem ao cemitério para visitar o túmulo de parentes. Usa-se farda azul neste dia.
OS ILUSTRES FINADOS
Consideram-se atualmente na Doutrina do Daime, os companheiros do Mestre Irineu: Germano Guilherme, João Pereira, Maria Damião e Antônio Gomes como ilustres finados. Isto é, ilustres no sentido de terem se tornado companheiros exemplares de Mestre Irineu e também de serem detentores de hinários de destaque, ou de maior importância dentro da Doutrina depois do Hinário de Mestre Irineu. Assim, trouxemos neste artigo, um pouco da história de cada um em memória ao dia de Finados e também a foto de suas lápides no cemitério o palmeiral no Alto Santo.
GERMANO GUILHERME
Germano Guilherme foi um dos primeiros adeptos de Mestre Irineu no culto do Daime. Nasceu em Pernambuco[1], no dia 28 de maio de 1902. Foi para o Acre início da década de 1920. Ele fora um dos primeiros discípulos de Mestre Irineu, talvez o mais próximo. Mestre Irineu o conhecia desde que serviu na Força Policial[2] na década de 1920. Germano era um negro pernambucano apelidado de “Maninho” por Mestre Irineu (MOREIRA; MACRAE, 2011, P.113). Ele tinha um grande carinho pelo Mestre Irineu, e o chamava também de "maninho". Possui um dos quatro hinários tidos, como hinários dos companheiros do Mestre Irineu, atualmente intitulado de [Vós Sois Baliza]. Ele foi casado com D. Cecília, filha de Antônio Gomes e D. Maria de Nazaré, durante 21 anos, mas não teve nenhum filho com ela. Mas, antes de se casar com Cecília Gomes, ele já era viúvo de um casamento anterior. Dessa união anterior, ele tinha uma filha. A filha se chamava Francisca das Chagas. A filha não participava do Daime. Francisca, sua filha casou e foi para Porto Velho morar com o marido (MOREIRA; MACRAE, 2011, P. 318).
Fala-se que Germano sofria há anos de um problema na perna e, no entrar do ano de 1964, teve uma acentuada piora no seu estado de saúde, vindo a falecer em 22 de junho de 1964. Para muitos dos antigos seguidores de Mestre Irineu, a doença de germano Guilherme é explicada como sendo decorrente de crueldades que haveria cometido em uma encarnação anterior. Fala-se também da importância de seu hinário, cuja execução era reservada para ocasiões especiais (MOREIRA; MACRAE, 2011, P. 318).
JOÃO PEREIRA.
João Pereira conheceu o Mestre Irineu na “Força Policial” e só passou acompanhar os trabalhos espirituais de Mestre Irineu em 1933. Morreu no início da década de 1950, com idade na casa dos 50 anos. Não se sabe ao certo em que mês ele fez sua passagem e provavelmente neste ano fazem mais de 60 anos de seu falecimento. Fala-se que contraiu uma doença de pele terrível, não se sabe ao certo qual, possivelmente fogo selvagem, ou “alastrim” na terminologia local[3]. Conforme conta Paulo Serra:
O João Pereira trabalhava pro Antônio Carpina que tinha uma serraria. O João Pereira carregava madeira daqui dessas colônias e levava pra vender para ele lá. Foi no tempo que ele adoeceu. Foi quando ele veio pra cá se tratar de uma tal de alastrim, cai o couro da pessoa todinho. No começo parece com uma catapora, se não tratar direito, ela vai comendo, comendo e vai ficando carne viva. Passou dois meses se tratando com o papai (Mestre Irineu). Foi no tempo que ele estava quase bom. Aí, chegou o Manoel Belém e disse: “João Pereira vamos lá pra casa passar uns dias.” Ele disse: “Quem sabe é o Mestre.” Ele foi e perguntou a papai, papai disse: “Olhe, vá mas olhe a sua dieta!” “Tá bom.” Ele foi pra lá, quando foi com uns três dias o Manoel comprou um pirarucu preparou o pirarucu no leite da castanha e deu pra ele comer. Aí o João Pereira disse: “Não vou comer não, que faz mal.” Aí, o Manoel Belém disse: “Pereira, faz mal pra gente o que sai da boca da gente, o que entra não faz mal não, é alimentação.” Ele pegou e comeu com todo gosto. Aí ele foi piorando e teve que ficar na palha da banana sem roupa, porque ele não agüentava roupa. Quarentas dias depois ele morreu. O Papai até deu uma suspensão no Manuel Belém de seis meses. Esse camarada, com dois meses de suspenso, deu um tiro no urubu, matou o urubu e mandou a mulher tratar o urubu, depois ele obrigou ela comer, mas, ele não comeu. Depois de seis meses ele se apresentou e o papai o afastou de vez. O Manoel Belém com raiva pegou água fervente e matou cerca de 100 pés de jagube e uns duzentos pés de folha que tinha em seu terreno (entrevista com Paulo Serra em Março de 2007).
Na literatura e na comunidade do Daime, as informações sobre João Pereira são parcas, apesar da importância dada atualmente a seu hinário. Fala-se que ele nasceu no Ceará, na cidade de Porongaba, no ano de 1902. No início do Daime em Rio Branco, João Pereira recebeu a graduação de General do Conforto, por indicação de Mestre Irineu. Iniciada a nova fase no Alto Santo, quando as patentes ostentadas nas fardas foram suprimidas, João Pereira passou a fazer parte do Estado Maior. Ele acompanhou os trabalhos do Daime por cerca de 20 anos. Na identificação que consta em sua lápide, diz-se que faleceu em 1952, sem referência ao dia e mês. Na verdade, não se sabe ao certo a data precisa de sua morte. Acreditamos que na reforma do Cemitério Palmeiral, com a deterioração dos antigos túmulos, foram também perdidas as datas. Poucos são os antigos que têm a lembrança precisa da data de seu falecimento; apenas afirmam que ele morreu no início da década de 1950. O mesmo acontece com os dados de sua origem no Ceará. Pelo que se sabe, não tinha família no Acre.
Depois de seu falecimento, passaram-se três anos sem que o seu hinário fosse executado na comunidade do Daime. Fala-se que as circunstâncias e a doença que o levou a falecer tiveram um forte impacto na comunidade. Além disso, João Pereira morreu sem deixar claro quem deveria zelar por seu hinário. Antônio Roldão (cunhado de Mestre Irineu) se prontificou a ser seu zelador, mas faltou-lhe a lembrança de um dos seus hinos. D. Percília também não conseguiu se lembrar do hino e, assim, do hinário de João Pereira que continha quarenta e cinco hinos, só se conhecem quarenta e quatro.
O zelador de hinário é a pessoa designada para manter a memória oral, ou melhor, musical do hinário. Assim, quando Antônio Gomes faleceu, sua filha Adália assumiu a responsabilidade pela zeladoria de seu hinário, já quando morreu Maria Damião, a zeladora de seu hinário foi D. Percília. No caso de João Pereira, a responsabilidade foi atribuída a Francisco Grangeiro (MOREIRA; MACRAE, 2011, p. 246, 247, 248 e 249). Observemos o relato abaixo de D. Percília sobre isso.
Rapaz, a doença dele foi uma doença tão esquisita que eu não sei nem dizer. Eu sei que ele esteve doente prostrado muito tempo. Até tem um hino dele, um hino muito bonito, já chegando nos últimos, que esse ficou fora da linha. Eu sabia o hinário dele, sabia todinho, mas quando ele estava doente me falhou na memória alguns hinos. Quando eu vi que ele já estava nas últimas mesmo, mas ele estava com o pensamento dele firme, a gente via que ele não tinha mais jeito, mas ele falou até no ultimo momento. (...) Fui vendo que a coisa estava aproximando, que eu não lembrava todo o hinário dele, chamei o Antônio Roldão que era irmão da dona Raimunda, cunhado do Mestre. Ele sabia o hinário também. Eu fiz assim, vou pedir pra ele cantar os hinos arrastado ou não. O Antônio veio e disse: “Não se preocupe não, que eu sei do hinário dele todinho.” Eu fiquei descansada. Quando o homem morreu, ele não sabia, faltava esse que ele não sabia. Aí não tinha mais jeito. O hinário do João Pereira ficou arquivado três anos. Um dia o Mestre me chamou e disse: “Você ainda se lembra do hinário do João Pereira?” “Lembro sim senhor.” “Pois você escolha uma pessoa aí, pra ensinar esse hinário pra ele ficar na ativa.” Eu escolhi o Chico Grangeiro. Chamamos ele, perguntamos se ele queria, ele disse: “Quero sim.” Eu comecei ensinando a ele, mas ele sofreu pra tomar conta. Eu não sei por quê. Quando começou a cantar os hinos, diz ele que dava agonia, dava frio, dava tudo, quando era pra ir pros trabalhos. Depois ele aprendeu direitinho (...) (Percília Ribeiro).
MARIA DAMIÃO
Maria Damião foi uma das primeiras seguidoras de Mestre Irineu, o fundador da doutrina do Daime. Maria Damião também conhecida como Maria Marques Vieira (nome adquirido no casamento com Damião Marques) se chamava MARIA FRANCISCA VIEIRA quando era solteira. Ela trabalhava com carvoaria e tinha também uma banca no comercio de Rio Branco, Acre, onde vendia tapioca, bolo, pé de moleque e café. Maria Damião nasceu no Ceará, no dia 4 de novembro de 1910, e foi para o Acre no final da década de 1920, ao lado de Porfílio seu primeiro esposo. Maria Damião não teve filhos com Porfílio. Comenta-se que logo depois que chegou ao Acre, Pórfilio foi assassinado e, em seguida, ela conheceu Damião Marques de Oliveira, o seu segundo esposo. Maria Damião casou com Damião Marques de Oliveira no início da década de 1930. Juntos tiveram seis filhos, Raimundo (o primogênito), Laura, Lúcio, Hugo, Waldir e Matilde (a caçula). O casal também criava um sobrinho de Damião, chamado Wilson, filho de Manoel Marques (irmão de Damião Marques)[4]. Em 1934 o casal conheceu Mestre Irineu (Fundador do Daime) e passaram freqüentar as suas sessões do Daime. Os irmãos de Damião Marques, Pedro, Manuel e Lucas, juntamente com suas esposas e filhos Também se tornaram seguidores de Mestre Irineu (ver MOREIRA; MACRAE, 2011). Aos 30 anos de idade Maria Damião tornou-se viúva pela segunda vez. O Mestre Irineu pode contar muitas vezes com a família de Damião Marques para lhe dar apoio para a realização dos rituais do Daime. Comenta-se que Damião Marques cedia sua varanda que era ampla, onde cabiam mais participantes.
No dia 2 de abril de 1949, a comunidade de seguidores de Mestre Irineu recebeu a triste notícia inesperada: o falecimento de Maria Damião. Fala-se que ela faleceu devido a um choque térmico. Maria Damião estava trabalhando numa caieira (forno de fazer carvão) ao relento, quando de repentinamente chegou uma friagem. No estado do Acre são muito comuns as friagens que acontecem principalmente a partir do mês de maio. As temperaturas nas friagens chegam a 12 graus em Rio Branco, pela ausência de chuvas chamam esse período de “verão”. A friagem surge repentinamente, e a temperatura pode mudar de 39 graus para 15 graus, podendo baixar muito mais (não é raro cair granizo no Acre). Foi numa friagem intensa atípica (pois aconteceu no início de abril) e repentina que Maria Damião, que estava trabalhando com altas temperaturas na beira da caieira, sofreu o choque térmico. Fala-se que ela ficou três dias acamada e seu rosto estava muito inchado. Só no terceiro dia resolveram chamar o Mestre Irineu. De imediato, Mestre Irineu mandou Percília acudir a Maria Damião, mas quando ela chegou lá, não havia mais o que fazer. (ver MOREIRA; MACRAE, 2011).
IMPORTANTE CORREÇÃO SOBREA DATA DE FALECIMENTO DE MARIA DAMIÃO
Durante muito tempo se divulgou que Maria Damião morreu em 1942. Possivelmente o equívoco começou com relatos de terceiros que não a conheceram. Depois o próprio equívoco tomou proporções maiores, este foi dado como verídico e foi parar na lápide do túmulo de Maria Damião. Porém, a afirmação de que o ano de falecimento de Maria Damião é 1942 não é plausível, pois os próprios filhos dela comentam que ela morreu quando Guiomar era governador (25 de abril de 1946 a 30 de junho de 1950). Outro fato que desfaz esse engano é a confirmação de Percília Ribeiro, amiga próxima de Maria Damião, que afirma que ela morreu em 1949. Além de Percília, confirmam o ano de 1949 a família de seu Elias e Paulo Serra. O caso da inscrição na lápide se explica pelo fato de que o cemitério do palmeiral foi reformado. Sabe-se que na reforma foram transferidos alguns túmulos de lugar, devido a aleatoriedade destes (distribuídos sem alinhamento). Muitos dos túmulos já estavam sem identificação. a maioria dos túmulos foram padronizados depois da reforma. Provavelmente a nova identificação foi feita a partir de dados de terceiros que não a conheceram. Dessa forma, até hoje no cemitério do Palmeiral na lápide de Maria Damião consta como a data de seu falecimento 2 de abril de 1942 (veja a foto no álbum).
Com a morte de Maria Damião, seus filhos ficaram órfãos de pai e mãe. Os filhos de Maria Damião ainda eram menores de idade; só o mais velho, Raimundo, estava próximo dos dezoito anos. Assim, Raimundo, Laura, Lúcio, Hugo, Waldir, Matilde e Wilson (sobrinho criado por Maria Damião) foram todos encaminhados a morar com Mestre Irineu no Alto Santo.
ANTÔNIO GOMES
O Antônio Gomes nasceu no dia 30 de abril de 1885 na cidade de Sobral no Ceará. No primeiro ciclo da borracha ele seguiu junto com sua esposa Maria de Nazaré para a cidade de Bragança no Pará depois que muitos de seus familiares já estavam lá. Antônio Gomes depois deixou a cidade Bragança para ir para o Acre em 1918. Sabe-se que logo depois que Antônio Gomes chegou ao Acre ficou viúvo de Maria de Nazaré. Os dois juntos tiveram cinco filhos: Leôncio Gomes, Raimundo Gomes, Guilherme Gomes, Zulmira Gomes e Cecília Gomes. Foi quando se casou com Maria Gomes e teve mais quatro filhos, dois dos quais um morreu prematuramente e outro morreu ainda jovem. Os dois que viveram desse casamento foi José Gomes e Adália Gomes. Quando Antônio Gomes procurou o Daime estava doente de uma doença estranha, ou, para uns “esquizofrenia”. Fala-se que ele não dormia e brigava todo dia chegando a desconhecer seus familiares. Na época ele morava numa localidade de Rio Branco chamada Calafate e era marreteiro, uma espécie de comprador e vendedor de produção agrícola. Foi quando na ocasião, seu amigo Zé das Neves indicou o trabalho espiritual de Mestre Irineu para ele obter a cura. Assim, em 1938, Antônio Gomes procurou Mestre Irineu e se curou dos males que lhe afligia. Antônio Gomes depois que ficou curado passou a seguir Mestre Irineu junto com toda sua família.
Fala-se que período que se seguiu à mudança para o Alto Santo foi muito difícil para Mestre Irineu e seus seguidores. Perante a necessidade de retomar o trabalho nas plantações de onde retiravam sua subsistência, os membros da comunidade reiniciaram as culturas de arroz, milho, feijão e mandioca. Devido à distância que o separava do grupo de Vila Ivonete, muitas vezes, o próprio Mestre Irineu tinha que trabalhar sozinho, sem poder contar com a ajuda dos outros. Além disso, em meados de maio de 1946, um ano após sua mudança para o Alto da Santa Cruz (ou simplesmente “Alto Santo”, como posteriormente passou a ser chamado), ele decidiu suspender os trabalhos do Daime, causando grande consternação entre seus seguidores. Até hoje, os daimistas mais antigos ainda relutam em falar desse assunto, de tão desagradável lembrança, tornando difícil determinar sua causa, mas há sugestões de que seu estopim final tenha sido uma afronta feita a ele por Maria Franco.
Durante esse período, Antônio Gomes teria tentado reunir a irmandade para pedir a Mestre Irineu que voltasse a realizar as sessões. Segundo Lourdes Carioca, ele foi a cavalo de casa em casa, solicitando aos irmãos que “se humilhassem” e pedissem para o Mestre voltar a abrir as sessões. Mas o líder permanecia irredutível, desgostoso com as constantes discórdias entre seus seguidores. Comenta-se que certas atitudes inapropriadas de alguns daimistas o teriam entristecido profundamente. Um pouco depois dessa sua tentativa de convencer Mestre Irineu a reabrir os trabalhos, Antônio Gomes sofreu um acidente, um boi o chifrou pelas costas, causando-lhe sentir dores intensas, que o levaram à cama. Passou então vários meses acamado e, em lugar de melhorar, seu estado de saúde piorava. Alarmado, pediu a Mestre Irineu que lhe desse algum conforto. Este recebeu o hino “74 – Só eu cantei na barra” e o cantou para ele. Ao ouvir esse hino, onde fica muito explícito o pensamento de Mestre Irineu sobre reencarnação, Antônio Gomes se acalmou, conformando-se com a proximidade de seu fim. Em outra visita que Mestre Irineu lhe fez antes de seu falecimento, Antônio Gomes pediu a ele que cuidasse de sua família. Em atenção a esse pedido, Mestre Irineu passou então a dedicar uma atenção paterna aos seus filhos. Adália Grangeiro, filha de Antônio Gomes, falou assim sobre o acometimento de seu pai:
Ele trabalhava assim, marretando, comprando mercadoria nas colônias e levando pro mercado, né. Aí, ele comprava e levava pra vender no mercado. Dizem que ele tava assim com um saco de adubo muito pesado, aí, ele sentiu o peito dele, dando uma torção. Antes disso, ele já tinha levado uma chifrada de um boi mocho sem chifre. Ele ia passando perto do boi que estava amarrado, mas a corda era muito comprida. Ele pensava que o boi não ia mexer com ele. Mas, quando ele passou pelo boi, ele só sentiu foi a pancada nas costas, aí ele caiu. A doença começou daí. Ele começou com dor no peito e nas costas, mas, não tinha médico pra ir pra saber o que aconteceu. Aí ele só tomou remédio caseiro e daime mesmo. Ele passou muito tempo sem trabalhar, sem poder trabalhar, e disso ele se foi (Entrevista de Dália Grangeiro, filha de Antônio Gomes, em março de 2007).
Antônio Gomes nasceu em 30 de abril de 1885 e morreu em 14 de agosto de 1946. Segundo Maria Gomes, sua esposa, um pouco depois que seu marido faleceu, Mestre Irineu resolveu abrir os trabalhos do Daime novamente. (MOREIRA; MACRAE, 2011, p. 235,236 e 237). Observemos abaixo o relato de D. Percília Ribeiro sobre o falecimento de Antônio Gomes e o hino que Mestre Irineu recebeu.
O Mestre chegou e me chamou e disse: “ Eu recebi uma cura pro Antônio Gomes.” Aí, eu disse: “Recebeu, graças a Deus.” Aí ele foi e cantou: “Só eu cantei na barra, que fiz estremecer, tu queres vida eu te dou, que ninguém não quer morrer...” Ele cantou todinho, né. Aí, quando ele acabou eu digo: “Já estou ciente do que vai acontecer.” Aí, eu pensei que o que ele tinha recebido era uma cura pra ele, mas foi uma cura eterna. Com dois dias ele faleceu, mas, foi uma morte tão bonita a dele, né. Ele estava consciente de fazer a passagem, quando chegou a hora, ele reuniu todas as pessoas que estavam ali. Aí, com todas ao redor dele, mandou todo mundo rezar, quando chegou lá numas alturas ele olhou assim e disse: “Tem gente aí que não está rezando.” ele rezando também, foi rezando, quando chegou na Santa Maria, ele aí foi se entregando. Foi uma morte bonita, bonita mesmo a morte dele. Poucas pessoas tem coragem de fazer um trabalho desses, não é? (Entrevista de D. Percília Ribeiro dada a Antônio Macedo em 1999).
Notas
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[1] Segundo Dona Cecília Gomes, esposa de Germano, e Paulo Serra seu filho, Germano Guilherme nasceu no estado de Pernambuco - PE.
[2] De forma geral, na literatura existente sobre este período, fala-se que Irineu serviu na Guarda Territorial. É o caso muitos de antropólogos e pesquisadores do tema. Tudo indica que a maioria dos autores faz afirmações a partir de memórias de seguidores de Mestre Irineu, ou de outros pesquisadores que confundiram os momentos históricos. Ao contrário do que se pode encontrar, na Revista do Centenário (Publicação que se tornou clássica na literatura sobre o Daime) de 1992, encontram-se claramente dois relatos sobre a passagem de Irineu pela Policia, o primeiro é do Luiz Mendes (MENDES, 1992, p. 15) e o segundo do João Rodrigues (RODRIGUES, 1992, p. 21). Conforme a nossa investigação (baseada em documentos da Policia Estadual do Acre), a instituição que Irineu serviu na época chamava-se Força Policial . Esta foi extinta no Governo do Major Guiomard dos Santos, passando a ser em 1948, Guarda Territorial. A Guarda Territorial (instituição Federal) foi extinta 1974 (SOUZA, 2005, p. 141) sendo substituída pela Polícia Militar do Estado do Acre (instituição estadual).Lembremos que a força policial local era uma espécie de instituição forte representante do governo federal. Muitos dos governadores e secretários gerais do Acre foram militares, desde a formação do território até a emancipação para estado nacional. (GERMANO)
[3] É corrente na comunidade do Daime, que o motivo para a doença contraída por João Pereira provinha de um débito espiritual. Fala-se que a sua falta de compaixão seria a causa de seu sofrimento. Pode-se dizer que tudo começou depois que ele durante uma jornada de trabalho na lida com fretes de carro de boi, deu uma surra em um dos animais. Comenta-se que um dos bois de sua carroça empacou na lama e recusava-se a se movimentar. Quanto mais ele fazia força, mas o bicho se recusava, até que lhe faltou paciência e começou a chicoteá-lo com violência para ver se o boi respondia. O seu achaque violento só aumentou, deixando o animal em carne viva. Fala-se que o boi não sobreviveu à tamanha surra. O acontecimento logo se espalhou na comunidade. O João Pereira em seguida procurou o Mestre Irineu para lhe comunicar o ocorrido. Fala-se que Mestre Irineu o advertiu dizendo que tal ato poderia ter retorno em sua vida. Diz-se que alguns dias depois o João Pereira começou a sentir uma coceira no corpo que lhe tomou por inteiro transformando-se numa grade ferida. Toda sua pele estava em carne viva.
[4] Os pais de Wilson, Manoel (Irmão de Damião) e Lúcia (da etnia kashinawá) morreram quando ele era ainda jovem. Maria Damião teve que fazer uma procuração em meados da década de 1940 ao juizado de Boca do Acre para ter a guarda de Wilson.
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Referência bibliográfica
MOREIRA, Paulo; MACRAE, Edward. “EU VENHO DE LONGE: Mestre Irineu e seus companheiros”, Salvador, Bahia, EDUFBA, EDUFMA, ABESUP, 2011.
NASCIMENTO, Luís Mendes. Depoimento. In: REVISTA DO 1º CENTENÁRIO: do Mestre Imperador Raimundo Irineu Serra. Rio de Janeiro: Beija Flor, 1992
RODRIGUES, João. Depoimento. In: REVISTA DO CENTENÁRIO: do Mestre Imperador Raimundo Irineu Serra. Rio de Janeiro: Beija Flor, 1992.
SOUZA, Carlos Alberto Alves. História do Acre: novos temas, nova abordagem. Rio Branco: Carlos Alberto Alves Souza, 2005.

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Comentários
2 Comentários

2 comentários:

  1. Eu fico feliz em ler a biografia do nosso eterno mestre,apesar de não ter conhecido, o meu respeito e minha gratidao e infinita.

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  2. Eu fico feliz em ler a biografia do nosso eterno mestre,apesar de não ter conhecido, o meu respeito e minha gratidao e infinita.

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