quarta-feira, 12 de setembro de 2012

O FALECIMENTO DE JOÃO PEREIRA, UM GRANDE SEGUIDOR DE MESTRE IRINEU.

Joo Pereira trab
                                                            Foto: Flávio Lopes      Edição e Design: Paulo Moreira
Abordaremos neste artigo, o falecimento de João Pereira, um seguidor de Mestre Irineu menos conhecido, isto é, muita informação sobre sua vida foi perdida. João Pereira morreu no início da década de 1950, com idade na casa dos 50 anos. Não se sabe ao certo em que mês ele fez sua passagem e provavelmente neste ano fazem mais de 60 anos de seu falecimento. Assim, aqui, vamos lembrar um pouco de sua história no Daime e seus momentos finais, e também tentar entender o porquê de seu esquecimento na história do Daime. É importante frisar que este artigo é um pequeno recorte de um trecho do livro “Eu venho de longe: Mestre Irineu e seus companheiros”, readaptado para a web.
O início da década de 1950 foi também marcado pelo falecimento de João Pereira. Fala-se que contraiu uma doença de pele terrível, não se sabe ao certo qual, possivelmente fogo selvagem, ou “alastrim” na terminologia local(1). Conforme conta Paulo Serra:

O João Pereira trabalhava pro Antônio Carpina que tinha uma serraria. O João Pereira carregava madeira daqui dessas colônias e levava pra vender para ele lá. Foi no tempo que ele adoeceu. Foi quando ele veio pra cá se tratar de uma tal de alastrim, cai o couro da pessoa todinho. No começo parece com uma catapora, se não tratar direito, ela vai comendo, comendo e vai ficando carne viva. Passou dois meses se tratando com o papai (Mestre Irineu). Foi no tempo que ele estava quase bom. Aí, chegou o Manoel Belém e disse: “João Pereira vamos lá pra casa passar uns dias.” Ele disse: “Quem sabe é o Mestre.” Ele foi e perguntou a papai, papai disse: “Olhe, vá mas olhe a sua dieta!” “Tá bom.” Ele foi pra lá, quando foi com uns três dias o Manoel comprou um pirarucu preparou o pirarucu no leite da castanha e deu pra ele comer. Aí o João Pereira disse: “Não vou comer não, que faz mal.” Aí, o Manoel Belém disse: “Pereira, faz mal pra gente o que sai da boca da gente, o que entra não faz mal não, é alimentação.” Ele pegou e comeu com todo gosto. Aí ele foi piorando e teve que ficar na palha da banana sem roupa, porque ele não agüentava roupa. Quarentas dias depois ele morreu. O Papai até deu uma suspensão no Manuel Belém de seis meses. Esse camarada, com dois meses de suspenso, deu um tiro no urubu, matou o urubu e mandou a mulher tratar o urubu, depois ele obrigou ela comer, mas, ele não comeu. Depois de seis meses ele se apresentou e o papai o afastou de vez. O Manoel Belém com raiva pegou água fervente e matou cerca de 100 pés de jagube e uns duzentos pés de folha que tinha em seu terreno (entrevista com Paulo Serra em Março de 2007).

Na literatura e na comunidade do Daime, as informações sobre João Pereira são parcas, apesar da importância dada atualmente a seu hinário. Fala-se que ele nasceu no Ceará, na cidade de Porongaba, no ano de 1902. No início do Daime em Rio Branco, João Pereira recebeu a graduação de General do Conforto, por indicação de Mestre Irineu. Iniciada a nova fase no Alto Santo, quando as patentes ostentadas nas fardas foram suprimidas, João Pereira passou a fazer parte do Estado Maior. Ele acompanhou os trabalhos do Daime por cerca de 20 anos. Na identificação que consta em sua lápide, diz-se que faleceu em 1952, sem referência ao dia e mês. Na verdade, não se sabe ao certo a data precisa de sua morte. Acreditamos que na reforma do Cemitério Palmeiral, com a deterioração dos antigos túmulos, foram também perdidas as datas. Poucos são os antigos que têm a lembrança precisa da data de seu falecimento; apenas afirmam que ele morreu no início da década de 1950. O mesmo acontece com os dados de sua origem no Ceará. Pelo que se sabe, não tinha família no Acre.
Depois de seu falecimento, passaram-se três anos sem que o seu hinário fosse executado na comunidade do Daime. Fala-se que as circunstâncias e a doença que o levou a falecer tiveram um forte impacto na comunidade. Além disso, João Pereira morreu sem deixar claro quem deveria zelar por seu hinário. Antônio Roldão (cunhado de Mestre Irineu) se prontificou a ser seu zelador, mas faltou-lhe a lembrança de um dos seus hinos. D. Percília também não conseguiu se lembrar do hino e, assim, do hinário de João Pereira que continha quarenta e cinco hinos, só se conhecem quarenta e quatro.

O zelador de hinário é a pessoa designada para manter a memória oral, ou melhor, musical do hinário. Assim, quando Antônio Gomes faleceu, sua filha Adália assumiu a responsabilidade pela zeladoria de seu hinário, já quando morreu Maria Damião, a zeladora de seu hinário foi D. Percília. No caso de João Pereira, a responsabilidade foi atribuída a Francisco Grangeiro. Observemos o relato abaixo de D. Percília sobre isso.

Rapaz, a doença dele foi uma doença tão esquisita que eu não sei nem dizer. Eu sei que ele esteve doente prostrado muito tempo. Até tem um hino dele, um hino muito bonito, já chegando nos últimos, que esse ficou fora da linha. Eu sabia o hinário dele, sabia todinho, mas quando ele estava doente me falhou na memória alguns hinos. Quando eu vi que ele já estava nas últimas mesmo, mas ele estava com o pensamento dele firme, a gente via que ele não tinha mais jeito, mas ele falou até no ultimo momento. (...) Fui vendo que a coisa estava aproximando, que eu não lembrava todo o hinário dele, chamei o Antônio Roldão que era irmão da dona Raimunda, cunhado do Mestre. Ele sabia o hinário também. Eu fiz assim, vou pedir pra ele cantar os hinos arrastado ou não. O Antônio veio e disse: “Não se preocupe não, que eu sei do hinário dele todinho.” Eu fiquei descansada. Quando o homem morreu, ele não sabia, faltava esse que ele não sabia. Aí não tinha mais jeito. O hinário do João Pereira ficou arquivado três anos. Um dia o Mestre me chamou e disse: “Você ainda se lembra do hinário do João Pereira?” “Lembro sim senhor.” “Pois você escolha uma pessoa aí, pra ensinar esse hinário pra ele ficar na ativa.” Eu escolhi o Chico Grangeiro. Chamamos ele, perguntamos se ele queria, ele disse: “Quero sim.” Eu comecei ensinando a ele, mas ele sofreu pra tomar conta. Eu não sei por quê. Quando começou a cantar os hinos, diz ele que dava agonia, dava frio, dava tudo, quando era pra ir pros trabalhos. Depois ele aprendeu direitinho (...) (Percília Ribeiro).

(MOREIRA; MACRAE, 2011, p. 246, 247, 248 e 249)

Notas de fim de artigo
_______________________________
(1) É corrente na comunidade do Daime, que o motivo para a doença contraída por João Pereira provinha de um débito espiritual. Fala-se que a sua falta de compaixão seria a causa de seu sofrimento. Pode-se dizer que tudo começou depois que ele durante uma jornada de trabalho na lida com fretes de carro de boi, deu uma surra em um dos animais. Comenta-se que um dos bois de sua carroça empacou na lama e recusava-se a se movimentar. Quanto mais ele fazia força, mas o bicho se recusava, até que lhe faltou paciência e começou a chicoteá-lo com violência para ver se o boi respondia. O seu achaque violento só aumentou, deixando o animal em carne viva. Fala-se que o boi não sobreviveu à tamanha surra. O acontecimento logo se espalhou na comunidade. O João Pereira em seguida procurou o Mestre Irineu para lhe comunicar o ocorrido. Fala-se que Mestre Irineu o advertiu dizendo que tal ato poderia ter retorno em sua vida. Diz-se que alguns dias depois o João Pereira começou a sentir uma coceira no corpo que lhe tomou por inteiro transformando-se numa grade ferida. Toda sua pele estava em carne viva.

Referência bibliográfica
MOREIRA, Paulo; MACRAE, Edward. “EU VENHO DE LONGE: Mestre Irineu e seus companheiros”, Salvador, Bahia, EDUFBA, EDUFMA, ABESUP, 2011.


  Receba as publicações "Eu Venho de Longe: Mestre Irineu e seus companheiros" por e-mail   

Informe seu email para receber novos artigos


0 comentários:

Postar um comentário