segunda-feira, 9 de julho de 2012

UMA DAS POUCAS PALESTRAS QUE O MESTRE IRINEU DEU EM PÚBLICO


Foto inédita do Mestre Irineu com a família de seu Loredo (um dos feitores da comunidade) 

UMA DAS POUCAS PALESTRAS QUE O MESTRE IRINEU DEU EM PÚBLICO 
Neste artigo, abordaremos uma das poucas vezes que o Mestre Irineu discursou em público. A palestra que nos referimos aqui é a que aconteceu em 15 de novembro de 1970, após a sessão de concentração. Esta sessão foi uma das últimas das quais Mestre Irineu participou. Sua palestra foi gravada mas, infelizmente, o registro é quase inaudível, por causa do ruído do gerador a gasolina que era utilizado na sede para iluminar o salão. Fala-se também que Mestre Irineu nessa mesma ocasião discursou em “Tupi”.

Palestra do Mestre Irineu feita após a concentração do dia 15 de novembro de 1970.
Pouco antes de começar a passar por suas crises mais agudas do convalescimento que vinha sofrendo, Mestre Irineu fez uma preleção durante um trabalho de concentração, criticando a desarmonia entre seus seguidores. Segundo um de seus seguidores, Pedro Matos, nessa ocasião ele teria dito que estava muito desapontado com o comportamento de alguns deles e chamou a atenção de vários participantes casados devido aos seus desentendimentos com as suas esposas.
Afirmou também que o daime não era para guerra; “...que na guerra precisa-se de bala, de muita bala e que para se ter o daime em casa é necessário ter paz e amor...”. Comentou também sobre a falta de respeito de alguns de seus seguidores que estariam entrando em terras alheias para colher a produção, sem pedir licença ao dono. Repetiu muitas vezes durante sua palestra que essas pessoas não estavam aprendendo nada no Daime; que ele não dava exemplo para ninguém dali ser ladrão. Nas palavras de Pedro Matos: 
Fui lá à casa dele. Cheguei lá, logo falei pra ele. Ele disse: “Já tô sabendo. Já estou sabendo dos irmãos que chega no roçado do outro e tira macaxeira, tira banana, abacate, laranja e tira tudo. E o irmão não dando, não chega nem a pedir. Eu doei terra aqui pra todo mundo, para poderem ter uma terrinha pra trabalhar. Mas não entro na propriedade de ninguém antes de pedir ao dono. E porque um irmão chega no roçado do outro e faz isso? Deixe comigo que, na reunião de 15 de novembro, eu vou fazer uma palestra. Não é do meu costume não, mas tá sendo necessário eu fazer. Sem citar o nome de ninguém.” Foi quando ele disse que guerra precisa de muita bala. Aí, ele falou e disse: “Meus irmãos, todo mundo aqui corre atrás do Mestre, todo mundo toma daime e não aprenderam nada. Daqui a pouco o Mestre morre, e como é que vão ficar? Ninguém aprendeu nada, e quem toma daime é para aprender. Isto é uma das metas que eu quero falar. E outra, eu quero falar com todos, sem falar nas senhoras, que elas não devem tá procedendo desta maneira. Me dêem licença, me desculpe, me perdoem que eu aqui não quero chamar atenção de ninguém. Mas, como chefe, como comandante do trabalho, mas como chefe dessa doutrina, eu tenho de falar. Nós devemos respeitar os direitos dos outros, seja qual for o tamanho do direito, nós temos de respeitar. Se você tem um sítio com bananal, canavial ou qualquer coisa, e pega sem falar pro dono, é roubo. Você não tem fé. Aqui eu tô formando um grupo de homens, não é de moleques não. Isso é uma parte, a outra é a união, como se respeita a família, como se respeita os filhos, como se respeita o padre, a esposa, e no caso é de ambas as partes, do jeito que a mulher tratar o marido com todo o respeito, o marido deve tratar a mulher também. Com a união, com o amor e com sinceridade, porque como diz o hino: ‘o escudo nós temos na mão, e a firmeza no coração’, não é assim que o hino diz...” Ele estava falando com D. Percília. “Nós temos de tomar daime e aprender aquilo que o daime tá nos ensinado. Não é fazer aquilo que o nosso pensamento tá pensando, nosso coração tá pedindo. Porque tem coisas que está no nosso coração, no nosso pensamento, na nossa imaginação, que está totalmente fora do poder, do poder divino. Deve-se, sim, ter a união, a verdade, amor e justiça. Deve-se ter todo dia, e que cada dono de casa tem de pedir ao outro dono. A primeira coisa que você faz quando abre a porta de casa é pedir a Deus: ‘Me dê paz, me dê harmonia, amor, verdade, e justiça à minha família’. Você pedindo paz, amor, verdade e justiça, vem o pão, vem a saúde, vem tudo, mas se você pedir guerra só chega guerra. E pra ter paz é muita reza, e pra guerra é muita bala. A casa que tá com daime é pra ter respeito. A casa que existe guerra não pode ter daime. Porque daime não é para guerra, é para a paz. O daime é Deus, daime é saúde, é amor. Onde existe guerra, descompostura, palavrão pode ter daime? Como é que Deus pode encostar nisso? Deus sabe que você existe, mas você não tá guardando ele dentro. Você tá guardando dentro de si, então, você tem de saber dar valor à sua casa. Não dar palavrões, endiabrados, endemôniados, porque são coisas do outro lado, o das trevas, da escuridão. E não é isso que nós queremos na nossa missão. Nós queremos paz, amor, verdade, justiça, pra união, pro amor. Pro Daime é muita reza e pra guerra muita bala” (Entrevista com Pedro Matos, viúvo de Percília Ribeiro, em março de 2007).  
(MOREIRA; MACRAE, 2011, p. 364-366)

Veja também a segunda parte desse artigo em:

Veja a parte audível dessa gravação que conseguimos melhorar:

Referência bibliográfica

MOREIRA, Paulo; MACRAE, Edward. “EU VENHO DE LONGE: Mestre Irineu e seus companheiros”, Salvador, Bahia, EDUFBA, EDUFMA, ABESUP, 2011.


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