domingo, 1 de julho de 2012

O DIA DO FALECIMENTO DE MESTRE IRINEU


Na manhã de segunda-feira, dia 5 de julho de 1971, D. Percília passou na casa de Mestre Irineu, como sempre fazia. Ele estava alegre, bem disposto; não dava sinais que estaria prestes a falecer e pediu a D. Percília que ela ficasse mais um pouco. Ela atendeu a seu pedido e ficou com ele até cerca das três da tarde. Parecia-lhe que ele estava realmente bem e, assim, ela finalmente resolveu se despedir dele, pedindo-lhe a benção. Segundo Dona Percília, ao sair, Mestre Irineu, de uma maneira que não era de seu costume, lhe fez a recomendação que fosse muito feliz. Ela o viu tão alegre, que não suspeitou de coisa alguma, saiu tranqüila e satisfeita (MOREIRA; MACRAE, 2011, p. 386).

Nessa mesma segunda-feira, por volta das 19:30 horas, João Rodrigues (Nica) esteve também com Mestre Irineu para lhe entregar a documentação do centro, devidamente registrada no livro de pessoas jurídicas do Fórum da Comarca de Rio Branco. Foi seu último encontro com o velho líder ainda em vida.
Todos estavam preocupados e muito aflitos com a saúde de Mestre Irineu e uma “Comissão de Cura” havia programado realizar, na quarta-feira dia 7 de julho de 1971, a terceira sessão de um trabalho que estava sendo realizado em seu benefício (MOREIRA; MACRAE, 2011, p. 387).

Na terça-feira dia seis, antes das nove horas da manhã, tudo parecia estar tranqüilo. De repente, Otília (esposa de Daniel Serra, sobrinho do Mestre) e Maria Zacarias ouviram um barulho no quarto de Mestre Irineu. Era ele que agonizava e passava por uma crise de micção. Fala-se que D. Peregrina levantara e estava fora do quarto. Chico Martins (antigo seguidor de Mestre Irineu casado com a viúva de Antônio Gomes, Maria Gomes) estava por perto e correu para acudir. Quando Chico Martins entrou no quarto, Mestre Irineu estava deitado numa rede sofrendo com a crise urinária seguida por um infarto. Fala-se que nesse momento Mestre Irineu se levantou da rede, ficou em pé e logo depois desfaleceu nos braços de Chico Martins, que o colocou novamente na rede, já sem vida. Comenta-se que ele estava suando muito, com um largo sorriso e lágrimas lhe caindo no rosto. Nesse momento se deram conta de que Mestre Irineu já não estava mais vivo (comunicação pessoal de Otília, esposa de Daniel Serra, que estaria presente na hora). Eram nove horas da manhã de terça feira do dia 6 de julho de 1971 (MOREIRA; MACRAE, 2011, p. 389).

Após a morte de Mestre Irineu, a notícia correu rapidamente e a tristeza tomou a comunidade e as redondezas do centro. Em pouco tempo a notícia ganhou dimensão. O radialista Mota de Oliveira, uma das últimas pessoas curadas por Mestre Irineu, anunciava seu falecimento nas ondas da Rádio Capital. A cidade de Rio Branco parava para ouvir a triste notícia. Os membros da irmandade do Daime que moravam na capital, eram golpeados pela notícia da perda (MOREIRA; MACRAE, 2011, p. 386).

Logo nas primeiras horas daquela manhã, foram tomadas as primeiras providências para seu velório. Foi possivelmente o dia mais triste da história da comunidade do Daime. O corpo do Mestre permaneceu em sua residência até ser vestido com a farda oficial. Na sede, os homens arrumavam os bancos e a mesa central para o ritual de velório e no local escolhido para o enterro foi dado o início à construção do jazigo, para que estivesse pronto para o enterro no dia seguinte. Todos os seguidores de Mestre Irineu foram convocados a trajar a farda oficial (branca). Em acordo, os homens resolveram homenagear o líder, colocando na farda a “Palma”, antigo adereço que tinha sido retirado recentemente. Daniel Serra (comandante do salão na época) teria sugerido a Leôncio que se formasse uma Guarda de Honra e este aprovado a idéia. Assim, um grupo de homens recebeu o corpo de Mestre Irineu, perfilado em forma de "V", significando vitória. O caixão foi colocado ao centro, coberto pela Bandeira Nacional. Comenta-se que essa homenagem com a bandeira dava a todos os presentes no velório a sensação de que se prestavam as honras a um “chefe de estado”. Na cidade, o governo Wanderley Dantas divulgava nota de pesar pelo falecimento do grande líder. Quanto à cerimônia do velório de Mestre Irineu, o novo Presidente, Leôncio Gomes, havia convocado a todos os presentes para participarem da missa e da execução do Hinário “O Cruzeiro”, na sede com o corpo presente. A missa começou às quatro da tarde. O hinário “O Cruzeiro” foi executado sentado e cantado a capela sem instrumentos musicais e sem maracá. Segundo João Rodrigues Facundes (Nica) os hinos d’ “O Cruzeiro” foram cantados com intercalação das preces Pai Nosso, Ave Maria e Salve Rainha (comunicação pessoal de João Rodrigues Facundes dada em Julho de 2008). Comenta-se que a emoção, o sentimento de dor e tristeza eram visíveis por todo lado, principalmente durante a execução do hinário. Diz-se que os semblantes dos seguidores pareciam flutuar no vazio, atingidos por um acontecimento inesperado (MOREIRA; MACRAE, 2011, p. 391 e 392).

Referência bibliográfica

MOREIRA, Paulo; MACRAE, Edward. “EU VENHO DE LONGE: Mestre Irineu e seus companheiros”, Salvador, Bahia, EDUFBA, EDUFMA, ABESUP, 2011. 

Veja também os artigos respeito deste assunto em: 

O LUGAR ONDEMESTRE IRINEU QUIS SER ENTERRADO

A CAPELA DO TÚMULO DEMESTRE IRINEU ANTES DA REFORMA

O TÚMULO DEMESTRE IRINEU DEPOIS DA REFORMA


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Comentários
2 Comentários

2 comentários:

  1. Incrível acompanhar tudo que realmente aconteceu, mais incrível ainda é poder ler palavras que meu avô deixou e que perdurarão por toda eternidade.

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