quinta-feira, 19 de julho de 2012

MESTRE IRINEU: UM HOMEM DE MUITAS DIMENSÕES



MESTRE IRINEU: UM HOMEM DE MUITAS DIMENSÕES
Apresentação do livro por JUCA FERREIRA, Ministro de Estado da Cultura no governo Lula


Trabalhador. Negro. Nordestino. Migrante. Caboclo. Ribeirinho. Seringueiro, sem-terra. Santo. Xamã. Líder. Médium. Espírita. Pajé. Curandeiro. Poeta. Compositor. Mestre. Tudo isto foi Raimundo Irineu Serra. Um homem-lenda, do Nordeste à Amazônia; das festas populares ao canto mais sagrado da floresta; da música e da dança à fé mais sincrética, mais universalista. Ao ritmo do maracá, santos, anjos, encantados, caboclos, orixás, entidades, divindades, todos irmanados na festa mágica que faz com que o Astral caiba em uma mente, em um pensamento. Nesse firmamento de infinitas possibilidades, um Mestre.

Naquele tempo da afirmação quase impossível do Estado Nacional brasileiro, Mestre Irineu foi síntese de possibilidades e resultado das contradições de um Brasil diverso e opressor, generoso e excludente, tudo ao mesmo tempo, nos vários tempos, nos espaços todos. Experiência viva de uma superação. Negou que fosse destino a homens com sua história, origem e prática a impossibilidade de encontrarem a plenitude do humano.

Nesse sentido, Irineu é alegoria do Brasil. É vitalidade que supera violência, exclusão, analfabetismo e fome. É a nossa diversidade generosamente alimentando almas brasileiras, e estrangeiras. Um Mestre que brota na Floresta, feito cipó e folha, água e fogo. E que a tudo alumia.
Neto de escravos que no início do século XX migrou do Maranhão para o Acre, onde se estabeleceu e desempenhou vários ofícios: da extração de borracha a policial. Nos arredores de Rio Branco passou a desenvolver atividades de cunho espiritualista e de medicina popular, utilizando-se da ayahuasca, bebida de fortes características psicoativas. Em 1930 funda um centro religioso: o Santo Daime ou Daime, como é mais conhecido. A comunidade rural que estabeleceu acolheu inúmeros imigrantes e seringueiros expulsos da floresta devido ao colapso da economia da borracha. Mestre Irineu e sua doutrina foram sujeitos a inúmeras perseguições e preconceitos suscitados pela predominância de afro-descendentes entre seus seguidores e pelos temores que as elites de então sentiam em relação à movimentos culturais e religiosos de origem afro-indígena como aquele que liderava.

Como estratégia de defesa para si e sua comunidade Mestre Irineu desenvolveu fortes laços com alguns políticos influentes de sua época, incluindo governadores e autoridades do exército. Hoje se considera de grande importância a sua participação na colonização do então Território que mais tarde viria a ser Estado. O movimento religioso que fundou assume características emblemáticas da identidade acreana, reminiscentes daquelas desempenhadas pelo candomblé na Bahia.

O texto do livro aqui apresentado faz uma sistematização dos dados já conhecidos sobre a história do Mestre Irineu e do Daime, além de trazer uma preciosa coleção de depoimentos dos primeiros participantes desse movimento religioso, muitos deles com já com idade avançada, ou já falecidos. A obra também enfatiza a influência da cultura afro-brasileira no desenvolvimento da doutrina pregada pelo Mestre Irineu.

Este livro é um trabalho de preservação da memória dos primórdios desse culto religioso, enfatizando a importância do Daime, símbolo do hibridismo cultural brasileiro, congregando diversas origens em nosso sistema de significado, e destacando a presença da matriz de origem africana, até agora pouco enfatizada nesse processo.

Este livro também é um marco não apenas porque passa a ser referência obrigatória, pelo que tem de pioneiro e revelador, mas porque é um claro esforço e contribuição de dois estudiosos para uma maior eficácia das políticas públicas sobre substâncias psicoativas muitas vezes estigmatizadas e simplificadas pelo nome de "drogas". Para um debate público mais condizente com o pluralismo, a diversidade e a democracia que queremos. Não podemos ignorar que é da natureza humana buscar ampliar o horizonte do real. Também não resta dúvida ser esta uma questão com forte impacto cultural. Sua gravidade e solução nos cobram uma compreensão ampla.

Não basta a descriminalização; a questão é complexa, precisamos de estratégias complexas e da contextualização de cada caso. Fato é que somente bem recentemente começamos a reconhecer a legalidade dos usos cultuais de certas substâncias psicoativas vinculadas a rituais.

Precisamos incorporar uma compreensão “antropológica” sobre o assunto, uma abordagem mais voltada para a atenção aos comportamentos e aos bens simbólicos despertados pelos diversos usos culturais das substâncias psicoativas. Isto também nos permite este precioso livro.


Brasília, 15 de dezembro de 2010
Juca Ferreira – Ministro de Estado da Cultura



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