segunda-feira, 23 de julho de 2012

MESTRE IRINEU E A RESSIGNIFICAÇÃO DA CULTURA AYAHUASQUEIRA

Ressignificação

MESTRE IRINEU E A RESSIGNIFICAÇÃO DA CULTURA AYAHUASQUEIRA.

Conforme falamos no artigo sobre a “demonização da ayahuasca”, há diferentes relatos sobre as experiências de Irineu com ayahuasca e detectam-se versões semelhantes da mesma crença de que a primeira vez teria se dado no contexto de um culto satânico. E de certa forma essa idéia acabou se consolidando entre seus seguidores como um mito de fundação, delimitando uma nova abordagem do uso da bebida, onde se deixavam as práticas pagãs, adotando-se em seu lugar os referenciais e valores cristãos. Esse mito marcaria o início da missão de Irineu, antepondo-se à ambigüidade dos brujos (bruxos) ou hechiceros (feiticeiros), chefes da ayahuasca[1], delimitando uma nova abordagem do uso da bebida através de uma ressignificação da cultura ayahuasqueira. Mas, é necessário compreendermos o fato de que as práticas do vegetalismo não foram totalmente negadas por Irineu, mas sim ressignificadas dentro do contexto do Daime. De toda forma, esta distinção possivelmente serve mais para colocar em evidência o poder de Mestre Irineu do que para o diferenciar dos vegetalistas. Vejamos o caso da narrativa de Francisco Grangeiro[2], apresentada mais abaixo. Francisco Granjeiro relata que, em suas primeiras experiências com a bebida, Mestre Irineu não sentiu seu efeito, também se fala de como ele veio a substituir certos termos usados pelos vegetalistas por outros mais adequados ao novo contexto, dando início a um novo contorno identitário para o uso da ayahuasca. Assim, por exemplo, teria mudado a categoria vegetalista “borracheira” para “afluído”, um termo mais associado ao esoterismo branco e provavelmente considerado na época como mais digno do que aquele termo espanhol “borracheira”, sinônimo de “embriaguês”. A narrativa deixa também implícita a manutenção de certas práticas da tradição “Vegetalista”, como a realização de sessões no escuro e o uso de tabaco[3].

(...) Foi por lá cortar seringa. Aí, ele pôde tomar conhecimento do Antônio Costa que ouviu falar na oasca né. “O que é que é essa oasca?” “É uma bebida que a gente toma e vê as coisas.” “Será que a gente vê mesmo?” “Vê.” “Eu vou tomar essa bebida da oasca, eu pelejei com Deus muitas vezes, até hoje não arrumei nada com Deus, agora eu vou lutar com o diabo, vou ver o que é que o diabo vai me dar né.” Aí ele foi. Foi lá com o Antonio Costa e tomou. Aí, ele não viu nada. Tomou foi duas ou três vezes, aí, ele foi e disse: “Sabe de uma coisa, eu não vou tomar mais isso. Aí ninguém não vê nada. Não vê nada não.” Quando foi um dia de quarta-feira, ele deu vontade de ir, chegou lá e tomou, Aí, sentou-se num assoalho de casa de seringueiro, às vezes tem uma paredinha. Foi sentou-se na beira do assoalho, ficou olhando pro tempo, aí, pouco mais, começou o afluído. Ele não chamava “afluído”, quem deu o nome de “afluído” foi ele, né. Ele chamava “borracheira”. Quando a pessoa tava com a borracheira, aí então se chamava, se chamava pelo Diabo.

Era um, dois, três, seiscentos. Era o nome que chamava. Era pelo Cão, né. Então se apagavam as luzes, ficava tudo no escuro, né. Alguma vez se acendia um cigarro e fumava. Ficava tudo no escuro, né. Ai quando foi que ele viu, ele começou a chamar, chamar. Cada Cão que ele chamava era uma cruz que aparecia. Aí, apareceu um cemitério, cemitério que era só cruz. Diabo, diabo seiscentos, mil seiscentos diabo. Cada diabo que ele chamava era uma cruz que apresentava pra ele. Aí, diz ele: “Eu quero o maioral, eu quero o chefe dos diabos. Que o chefe venha, que eu quero falar com ele.” Apareceu uma cruz grande. Aí ele pôde ter na idéia, que não era, porque o Cão tem medo de cruz. Cão não gosta de cruz. Aí, então ele pôde compreender que não era. Ele dizia não era coisa do diabo, né (...) (Entrevista de Francisco Grangeiro dada a Antônio Macedo em 1999).

Fala-se que, ao continuar suas experiências com a bebida, ele passou a ter contato com uma entidade feminina que se identificou como Clara. Essa entidade, ou divindade, seria a sua instrutora espiritual que o guiaria por todo seu processo de iniciação. Nota-se também nos relatos sobre a história de vida de Mestre Irineu que é ela quem legitima o seu “poder” ou a “dominação” que ele exerce sobre os seguidores do culto. Vejamos, então, a continuidade da entrevista anterior de Luís Mendes.

(...) Aí Antônio Costa viajou. O Mestre ficou. Na ansiedade de tomar o daime, ele resolveu preparar. Fez como Antônio Costa tinha dito. Pegou o cipó, preparou, juntou a folha, e cozinhou. Quando foi tomar, ele teve um receio. E resolveu não tomar sozinho. “Melhor esperar pelo Antônio Costa”, pensou. Quando ele chegou, o Mestre lhe ofereceu a bebida. Os dois tomaram, Antônio Costa ficou na sala, o Mestre lá dentro, no quarto. Quando começaram a mirar[4] Antônio Costa lhe disse: “Tem uma senhora conversando comigo e ela me falou que foi sua companheira desde que você saiu do Maranhão. Ela te acompanhou até aqui.” O Mestre não entendeu, porque ele tinha viajado sozinho. Perguntou: “Como é o nome dela?” “Ela está dizendo que se chama Clara. Tu te prepare, pois ela mesma vem conversar contigo.” Terminado o trabalho, ele ficou ansioso para tomar outra vez e encontrar-se com ela. Na próxima vez, depois de tomar o daime, ele armou a rede de modo que a vista dava acesso para a lua. Parece que estava cheia ou quase cheia. Era uma noite clara, muito bonita. E quando ele começou a mirar muito, deu vontade de olhar para Lua. Quando olhou, ela veio se aproximando, até ficar bem perto dele, na altura do teto da casa. E ficou parada. Dentro da Lua, uma Senhora, sentada numa poltrona, muito formosa e bela. Era tão visível, que definia tudo, até as sobrancelhas, nos mínimos detalhes. Ela falou para ele: “Tu tem coragem de me chamar de Satanás?” “Ave Maria, minha Senhora, de jeito nenhum!” “Você acha que alguém já viu o que você está vendo agora?” Aí ele vacilou, pensando que estava vendo o que os outros já tinham visto.“Você está enganado. O que você está vendo nunca ninguém viu. Só tu. Agora, me diz: quem você acha que eu sou?” Diante daquela luz, ele disse: “Vós sois a Deusa Universal!” “Muito bem. Agora, você vai se submeter a uma dieta. Para tu poder receber o que eu tenho para te dar.” A dieta era passar oito dias comendo macaxeira insossa... (...).

A maioria dos relatos sobre as experiências iniciais de Irineu com a ayahuasca segue o mesmo roteiro. Isto é, geralmente fala-se que Irineu, após sua experiência inicial no contexto vegetalista, se informa com Antônio Costa sobre como identificar as plantas, confecciona ele mesmo a bebida e o espera para a tomarem juntos. Nunca fica claro quantas vezes Mestre Irineu tomou a bebida com os vegetalistas, antes de confeccioná-la ele mesmo. Contudo, na maioria dos relatos, diz-se que foi a partir dessa experiência, em que ele mesmo havia preparado a bebida, que Irineu entra em contato com a entidade espiritual que revela ser sua instrutora. Vemos isso na narrativa de Luís Mendes. Segundo ela, Irineu foi novamente defrontado com a questão da bebida ser ou não satânica e fica evidente que a concepção negativa sobre a natureza do uso tradicional persistiu no pensamento do próprio Irineu. Nas narrativas este questionamento é feito pela entidade que se apresenta a ele. Curiosamente nestes depoimentos, dá-se a entender que o primeiro a ver a divindade foi Antônio Costa, que avisa a Irineu para se preparar para falar com ela na próxima experiência com a bebida. Outro fato curioso nas narrativas é que a entidade oferece uma laranja, que simbolicamente representa o mundo, tanto para o Antônio como pra Irineu. Mas, Antônio Costa, teria se recusado a aceitar a “Missão” da entidade que, então, teria repassado integralmente seu poder a Irineu.

Entre os ensinos transmitidos pela entidade feminina instrutora do jovem Irineu no decorrer de sua iniciação está a re-nomeação dos termos então utilizados pelos vegetalistas índios ou mestiços na identificação da bebida, das plantas e dos efeitos que produziam. Isso pode ser percebido em vários relatos como os seguintes, ambos de Francisco Grangeiro.

(...) Ele veio, trilhando, trilhando, trilhando, aí foi colocando nome nas coisas, como a Clara dizia, o nome dela era oasca, ele botou o nome de daime, né, o nome que era afluído, era borracheira, ele tirou e colocou afluído, que tem que a pessoa fluir e assim por diante (...) (entrevista de Francisco Grangeiro dada a Antônio Macedo, 2000).

(...) Na mata, ele viu um cipó e viu que era marirí. Ali perto ele encontrou um pé de folha. Quando chegou em casa, ele disse: “Antônio. Achei um pé de marirí e outro de chacrona.” “Quem te mostrou?”

“Ninguém!” “Vamos lá então pra ver.” Antonio Costa confirmou que era verdade. Eles cortaram, bateram e prepararam a bebida (...).

Sugerimos que essa mudança de certos termos, então usuais, talvez refletisse um desejo de evitar as conotações pejorativas então atribuídas a elementos culturais associados às tradições indígenas ou caboclas[5]. Além dessa renomeação evidenciar um esforço de Irineu na construção de uma identidade própria para o seu novo uso da bebida, devemos lembrar o contexto sócio-político da época, enfrentado por ele, onde suas práticas religiosas e seu uso da ayahuasca poderiam ser enquadrados nos artigos do código penal vigente[6]. Deste modo, sem descartar seu aspecto profético, a mudança do nome de ayahuasca para “daime”, de “borracheira[7]” (o efeito) para “afluído[8]”, e de Marirí[9] (o cipó) para “Jagube” e de mescla ou chacrona[10] (a folha) para “rainha”, dava mais respeitabilidade e proteção ao grupo de Antônio Costa e Irineu.

(MOREIRA; MACRAE, 2011, p. 89, 90, 92, 101 e 102)

 

Referência bibliográfica

MOREIRA, Paulo; MACRAE, Edward. “EU VENHO DE LONGE: Mestre Irineu e seus companheiros”, Salvador, Bahia, EDUFBA, EDUFMA, ABESUP, 2011.

 


[1] Este é um dos termos que definem a categoria de líder nas sessões ayahuasqueiras do vegetalismo peruano, boliviano e colombiano.

[2] Nasceu em Xapurí no dia 26 de Junho de 1921. Começou a tomar daime em 1950 com Mestre Irineu, convivendo com ele por 21 anos – nesse período foi designado por Mestre Irineu para ser feitor de daime.

[3] O suposto contexto satânico da experiência inicial de Irineu com ayahuasca já foi interpretado de diversas maneiras por antropólogos pesquisadores da área. A antropóloga Arneide Bandeira Cemin correlaciona este episódio ao tema fáustico de Goethe, e ao “ciclo do demônio logrado” dos folcloristas brasileiros (FERREIRA, 1995; CASCUDO, 1976). Para ela, esse modelo é reproduzido em diferentes narrativas populares, preservadas e difundidas nos folhetos literários e nas inúmeras edições dos livros de São Cipriano e Orações da Cruz de Caravaca, compondo uma espécie de vários faustos (CEMIN, 2001, p. 199). Dentre os temas fáusticos, ela correlaciona especificamente a experiência de Irineu à categoria de “Fausto da Salvação” de Jerusa Ferreira (1995), onde o herói é convertido por intervenção do bem. A nosso ver, Cemin baseia suas interpretações nas narrativas míticas sobre a experiência de Irineu com a ayahuasca num contexto satânico. Entretanto, se considerarmos que possivelmente estas narrativas expressam ecos de uma imagem distorcida repassada a Irineu sobre o contexto vegetalista (como contexto satânico), a “dádiva de um pacto satânico” surgirá como mais uma possibilidade. Outra interpretação desse contexto é feita pela antropóloga Sandra Goulart, que constata que seguidores de Irineu associam o seu contato inicial com a ayahuasca no ambiente vegetalista (caboclo ou mestiço) como “lócus” do “demônio”, ou, da “magia negra” (contexto negativo), e outras vezes, esse mesmo ambiente em outro momento é referenciado como “lócus da sabedoria e do conhecimento dos incas” (como contexto positivo), quando é citado o caso do caboclo D. Pizango (iniciador de Irineu na ayahuasca). A nosso ver, essa lógica binária contraditória talvez fique mais compreensível se levarmos em conta que para os habitantes da região daquela época a própria cultura indígena era vista como demoníaca. Assim, como já colocamos antes, é necessário lembrar que nos mesmos relatos, Irineu ao final da experiência desconstrói a distorção dos valores depreciativos sobre a bebida e sobre a cultura vegetalista. Desse modo, para nós, a constatação de tal lógica binária incongruente nos relatos é possivelmente resultado da própria incompreensão repassada a Irineu antes da experiência. Portanto, partindo-se do nosso ponto de vista, a suposta compreensão de Irineu resignifica tal lógica, também constatada pela antropóloga Sandra Goulart. Assim, pode-se dizer que alguns aspectos do vegetalismo passaram a ser ressaltados, outros esquecidos e outros ainda resignificados a partir da revelação dada a Irineu por uma entidade feminina que lhe propôs uma missão espiritual particularizada e distinta do contexto vegetalista.

[4] “Mirar” é o termo usado para o processo visionário, também conhecido como “miração”, desencadeado pela ingestão da ayahuasca.

[5] Não podemos deixar de fazer aqui uma analogia à preocupação atual dos daimistas em negarem que sua bebida seja uma “droga”, mesmo reconhecendo que contenha o elemento psicoativo DMT.

[6] A política oficial de repressão à feitiçaria era baseada no decreto de 11 de outubro de 1890, que introduzia no código penal os artigos 156, 157 e 158, referentes à prática ilegal da medicina, da magia e que proibia o curandeirismo e o uso de substâncias venenosas (MACRAE, 1992, p. 65).

[7] Termo cujo significado em espanhol, “embriaguez”, traria conotações obviamente desqualificadoras para o estado de consciência resultante do uso da ayahuasca.

[8] Termo associado ao espiritismo ou esoterismo de origem européia que, embora também perseguidos, eram menos estigmatizados que o “baixo espiritismo”, de origem afro-indígena.

[9] Termo de origem quéchua.

[10] Termo de origem quéchua.

0 comentários:

Postar um comentário