quarta-feira, 18 de julho de 2012

MESTRE IRINEU E OS APRENDIZADOS COM A RAINHA



MESTRE IRINEU E OS APREDIZADOS COM A RAINHA

Os nomes atribuídos à entidade por Mestre Irineu nesse primeiro momento de contato são: Princesa, Mulher, Senhora e Clara. Todavia, a partir do início do culto em Rio Branco, Mestre Irineu passou a identificá-la no seu hinário “O Cruzeiro” por outra série de nomes[1], e estes assumem uma natureza simbólica multívoca[2], de vários significados. Geralmente afirma-se que a “Senhora” apareceu para Irineu em diversas ocasiões. Mas o próximo relato de Francisco Grangeiro é um pouco diferente dos outros depoimentos bastantes conhecidos e divulgados na revista do centenário de Mestre Irineu. O relato de Francisco Granjeiro traz uma maior variedade de elementos, como o entendimento que Irineu tinha do conteúdo simbólico das visões.
(...) Aí, ele foi e disse “Antônio como é esse cipó?” Ele foi dando a dica lá pra ele como era o cipó, a folha, né, ai foi cortar, aí, no meio, deu vontade de parar. Ele disse: “É esse o cipó da oasca.” Aí, olhou bem pertinho o pé de folha. Quando ele chegou em casa ele disse: “Antônio encontrei o pé do cipó e encontrei o pé da folha.” Ele disse: “Ah não, não acredito, então vamos lá?” Chegaram lá, estava o cipó e a folha. Aí, foi e tirou. Fez até em uma panela de cozinhar feijão, aí, ele foi tomou, sentou-se lá no mesmo canto da beira da pachiúba. Aí, o Antônio Costa ficava lá dentro do quarto, né, só os dois. Aí, o Antônio Costa foi disse pra ele disse: “Raimundo eu tô vendo aqui uma senhora muito bonita, então, ela tá com uma laranja na mão. Pra te entregar a laranja.” Aí, ele foi e disse: “Antônio porque ela não entrega pra ti?” “Não ela não quer entregar pra mim, ela quer entregar pra você, e ela tá dizendo aqui que desde que tu saiu do Maranhão, que ela vem te acompanhando.” Aí, ele foi e disse: “Não.” Ele foi se lembrar se tinha na viagem arranjado alguma namorada. Mas nada. Aí, ele se lembrou e disse: “Antônio pergunta como é o nome dela?” “Raimundo ela tá dizendo que o nome dela é Clara.” “Clara!” Aí ele procurava, procurava, e nada. Aí, ele foi trabalhar. Quando é um dia, ele tomou daime de novo, aí, ela chegou, pegou a laranja e entregou na mão dele. “Tome a laranja, essa laranja, você é o dono dela.” Aí, ele olhou na cabeça dela tinha uma lua nova, e em cima da lua tinha uma águia né. Aí, como é que pode? E assim ele veio, foi chegando pra perto, pra compreender depois de muitos e muitos trabalhos que Clara é a Luz. A águia que ele viu na cabeça dela é a guia. Clara a luz, a guia, a águia é a guia. Então, dentro dessa estrela que a gente usa, ele queria que colocasse dentro da lua a águia, assim como o pássaro que quer voar. Mas o pessoal faz aberta as asas. Quando o pássaro tava no ponto de querer voar, então, é aquele ponto que ela queria voar, era o ponto que ele tava querendo seguir. Não é difícil pra nós ver e compreender? O camarada vem e quer saber. Isso foi antes, ai passou a duvidar. Com cinco anos foi que ele veio a deixar de duvidar. Ele ia cortar, aí, ela dizia: “Tu vai amanhã cortar a estrada fulano de tal. Quando tu for descer aquela baixinha que, tem uma madeira bem dentro da grota, tu olha assim o lado direito.Tem um pé de jarina. Debaixo tem deitado um veado. Tu atira e mata e trás aqui pra comer.” Ele dizia: “É conversa!”
Aí, ele esquecia daquilo. Quando ele chegou na madeira, ele lembrou-se. Quando ele olhou pra lá tava um pé de jarina e o veado deitado de baixo. Aí, foi que cinco anos ele passou duvidando que não era verdade (...).

(MOREIRA; MACRAE, 2011, p. 94-96)

Veja também nosso artigo:
MESTRE IRINEU E A DEMONIZAÇÃO DA AYHUASCA

CRÉDITOS

Neste vídeo, veja a entrevista de Francisco Granjeiro concedida a Antônio Macedo em 1998. Francisco granjeiro fala dos aprendizados de Mestre Irineu com a Rainha da Floresta .Este vídeo foi reeditado por Paulo Moreira em Maio de 2012.

NOTAS

[1] Lua Branca, Mãe Divina, Virgem, Rainha da Floresta, Lua Cheia, Luz, Virgem Mãe, Mãe Celestial, Virgem da Conceição, Mãe de Deus da Criação, Virgem Senhora, Santa Virgem, Mãe de Piedade, Mãe, Mãe do Redentor, Virgem Maria, Rainha do Mar, Professora, Divina Mãe, Mãe de todos, Mãezinha, Estrela que me guia, Mãe Protetora, Minha Rainha, Mamãe e Minha Flor. O importante destas nominações é a variedade das categorias empregadas por Mestre Irineu na identificação desta divindade, ou seja, o caráter cambiante e simbólico dos significados em relação ao significante. Enfim, esses elementos vão transitar nos relatos, nas letras das músicas executadas no ritual, e no imaginário dos seguidores ampliando-se ainda mais o sentido metafórico, principalmente, sob o efeito do psicoativo.
[2] Segundo o antropólogo Victor Turner, “os símbolos possuem propriedades de condensação, unificação de referentes dispares, e polarização de significado. Um único símbolo, de fato, representa muitas coisas ao mesmo tempo, é multívoco e não unívoco. Seus referentes não são todos da mesma ordem lógica, e sim tirados de muitos campos da experiência social e de avaliação ética” .

Referência bibliográfica

MOREIRA, Paulo; MACRAE, Edward. “EU VENHO DE LONGE: Mestre Irineu e seus companheiros”, Salvador, Bahia, EDUFBA, EDUFMA, ABESUP, 2011.

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