domingo, 15 de julho de 2012

MESTRE IRINEU E A DEMONIZAÇÃO DA AYHUASCA

M.I

(Demonização - dar ou adquirir caráter demoníaco, ou, atribuir caráter muito negativo a.)

    MESTRE IRINEU E A DEMONIZAÇÃO DA AYAHUASCA   

Tudo indica que Irineu passou a ter interesse em conhecer a “aoasca”, como a bebida provavelmente era então mais conhecida entre os caboclos amazônicos, quando se aproximou dos irmãos Costa nas imediações de Brasiléia. Antonio Costa sabia da existência de certos caboclos que consumiam a ayahuasca nos seringais do Peru e juntos, seguiram viagem para conhecer aquela bebida. Não fica claro em nenhum dos depoimentos se Antônio Costa já fazia uso da ayahuasca.

Chamou-nos a atenção nos depoimentos sobre este episódio a aura pejorativa e estigmatizante que era associada à bebida, e que fôra transmitida a Irineu antes dele a consumir pela primeira vez. Em geral, os relatos sobre sua iniciação apresentam o grupo de ayahuasqueiros como voltado a práticas satânicas. Esse é um conceito que precisaria ser reexaminado, levando em conta os preconceitos então vigentes a respeito de qualquer prática cultural ou religiosa que não se conformasse com os padrões da cultura cristã dominante.

Assim, acreditamos que a falta de familiaridade com a cultura vegetalista[1] tenha fomentado preconceitos tanto entre os participantes dos eventos aqui narrados quanto entre aqueles que até hoje tecem relatos a seu respeito. Provavelmente, ao invés de “demônio”, o que se invocavam nas cerimônias ayahuasqueiras eram entidades “caboclas” ou indígenas, desconhecidas por Irineu e seus colegas. Assim, se ele concebeu as suas primeiras experiências ayahuasqueiras como sendo chamados aos demônios, isso provavelmente foi resultado de crenças depreciativas que lhe haviam sido repassadas. Mas os relatos mostram como, ao conhecer melhor o assunto, ele mudou de idéia. Observemos diretamente nos relatos de Luis Mendes do Nascimento para a Revista do Centenário a persistência até o presente da concepção que os rituais ayahuasqueiros que Irineu presenciou seriam de natureza satânica.

Nesse período ele conheceu a aoasca, num seringal próximo ao Peru, com um companheiro. Seu nome era Antonio Costa. Ficaram morando juntos. Antonio Costa não era seringueiro. Explorava um negócio de regatão, comprava e vendia borracha. Ele lhe deu a notícia sobre uns caboclos no Peru, que bebiam a ayahuasca. Só que lá o pessoal que tomava essa bebida tinha um pacto satânico, para fazer fortuna e facilitar a vida de cada um. O mestre, até então, tinha procurado sempre por Deus, mas Deus tinha dado tão pouco a ele, naquela luta danada pra sobreviver. Resolveu experimentar a bebida e foi até lá. Tomou a bebida e quando os outros começaram a trabalhar, botaram a boca no mundo, chamando o demônio. Ele também começou a chamar. Só que na proporção que ele chamava o demônio, eram cruzes que iam aparecendo. Ele se sentiu sufocado de tanta cruz que apareceu. O Mestre começou a analisar:“O diabo tem medo da cruz, e na medida que eu chamo por ele, aparecem as cruzes. Tem coisa aí (...)”. Ele pediu para ver uma série de coisas. Tudo que ele queria, ele pode ver (...) E assim foi a primeira vez (...).

Em diferentes relatos sobre as experiências de Irineu com ayahuasca detectam-se versões semelhantes da mesma crença de que a primeira vez teria se dado no contexto de um culto satânico. Essa idéia acabou se consolidando entre seus seguidores como uma espécie de mito de fundação, demarcando uma nova abordagem do uso da bebida, onde se abandonavam as práticas pagãs, adotando-se em seu lugar os referenciais e valores cristãos. Esse mito marcaria o início da missão de Irineu, antepondo-se à ambigüidade dos brujos ou hechiceros, chefes da ayahuasca[2]. Isso não significa que as práticas do vegetalismo tenham sido totalmente negadas por Irineu, mas sim resignificadas dentro do contexto do Daime. De toda forma, esta distinção possivelmente serve mais para colocar em evidência o poder de Irineu do que para o diferenciar dos vegetalistas. O seguinte depoimento de Cecília Gomes (filha de Antonio Gomes) é um bom exemplo dessa visão, muito difundida entre os daimistas.

(...) Essa primeira vez, o Antônio Costa levou o Mestre para participar de uma sessão com um pessoal... (...) na selva peruana. Era uns caboclos que bebiam a uasca. O cipó, tinha vários nomes (...), os nomes que os índios davam (...) Mas lá o pessoal fazia um trabalho de magia negra. Bebiam a uasca para chamar o demônio (...) O Mestre não quis saber dessa história, porque ele tinha uma missão maior, que era fazer o bem, curando com o daime (...) Entrevista cedida a Sandra Goulart..

(MOREIRA; MACRAE, 2011, p. 87- 89)

Referência bibliográfica

MOREIRA, Paulo; MACRAE, Edward. “EU VENHO DE LONGE: Mestre Irineu e seus companheiros”, Salvador, Bahia, EDUFBA, EDUFMA, ABESUP, 2011.

Notas


[1] O uso desta bebida de procedência indígena foi disseminado na região do Alto Amazonas entre comunidades ribeirinhas e urbanas. Estas absorveram fragmentariamente as práticas dos rituais indígenas, reinterpretando e sistematizando novas matrizes, inserindo o uso dentro da cultura religiosa e curandeira local. Este uso não-indígena da bebida fora do Brasil é verificado exclusivamente por tradições xamanísticas denominadas como “Vegetalismo” boliviano, peruano e colombiano, classificadas também como uso mestiço. Os relatos na história da Amazônia ocidental constatam a existência desses curandeiros, conhecidos como “mestres vegetalistas”, ou “chefes da ayahuasca”, desde meados do século XIX, vistos na época como brujos (bruxos) ou hechiceros (feiticeiros) geralmente vinculados a características ambíguas, aptos a curar, como a efetuar feitiços maléficos. Eram vistos como mediadores entre a divindade e o cliente.

[2] Este é um dos termos que definem a categoria de líder nas sessões ayahuasqueiras do vegetalismo peruano, boliviano e colombiano.

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