segunda-feira, 9 de julho de 2012

A ARTE DE FALAR, CALAR E OUVIR DE MESTRE IRINEU


O gerador que faz ruído na gravação da palestra de Mestre Irineu

A ARTE DE FALAR, CALAR E OUVIR DE MESTRE IRINEU

A sessão, realizada em 15 de novembro de 1970, foi uma das últimas das quais Mestre Irineu participou. Sua palestra foi gravada mas, infelizmente, o registro é quase inaudível, por causa do ruído do gerador a gasolina que era utilizado na sede para iluminar o salão. Fala-se também que Mestre Irineu nessa mesma ocasião discursou em “Tupi”.

É interessante essa referência a ele falar “Tupi”. Além desse relato, encontramos também fragmentos de Tupi nos seus primeiros hinos do “Cruzeiro”. Acreditamos, porém, que seja pouco provável que Mestre Irineu dominasse, de fato, o Tupi. Cremos que possivelmente tal discurso se aproximaria mais de uma manifestação de glossolalia (suposta capacidade de falar línguas desconhecidas quando em transe religioso). De toda forma, seja glossolalia, seja Tupi, o evento denota a intenção de Mestre Irineu de manifestar o seu poder (ou mesmo a divinizar tal língua ou línguas).
É possível que Mestre Irineu sentisse, nesse momento de debilidade física, a necessidade de reafirmar seu carisma diante da comunidade. De curador e homem forte de grande estatura, para enfermo, frágil e mortal, passava por certa inversão de papéis. Desse modo, a palestra, além de ser um recurso retórico para chamar a atenção dos transgressores da moral da comunidade, pode ter sido também um recurso para exercer o seu poder carismático e pontuar, talvez pela derradeira vez, os valores de sua doutrina. Comenta-se que naquele momento, muitos estavam tristes e comovidos com sua condição física, mas ao mesmo tempo, alguns de seus seguidores já começavam a manifestar seus projetos de poder (diz-se até, que existiam aqueles que desejavam cantar seus próprios hinários no iminente enterro de Mestre Irineu). O que tornaria esse pronunciamento ainda mais significativo era o fato de que Mestre Irineu raramente palestrava durante as sessões de daime.

Uma faceta marcante de Mestre Irineu era a sua habilidade no uso da linguagem, conforme a situação, ora empregava palavras, ora o silêncio, como recursos retóricos.  Assim, embora às vezes se diga que era um homem de poucas palavras, uma espécie de mestre do silêncio, há também relatos de momentos em que dominava as conversas e do fascínio que exercia quando contava histórias durante reuniões informais. João Lima, antigo seguidor de Mestre Irineu, conta:

No tempo do Mestre Irineu, ia pra lá dia de domingo de tarde e enchia a casa dele. Ninguém ia conversar com ele, ele é que conversava com a gente, que ninguém sabia conversar com ele e ele é que tinha aquelas histórias bonitas para contar. Ninguém tinha nada para contar para ele, então ficava só escutando ele. Era divertido comadre, era muito bom, o Mestre Irineu era divertido, contava muitas histórias. Ele achava graça, contava a história dele e achava graça, era divertido. A gente ficava calado, só escutando.                                 

Usando as palavras a seu modo, muitas vezes em desacordo com a norma culta, ele desenvolveu um estilo lingüístico próprio de forte impacto; dotado de um léxico específico, fórmulas, estereótipos e formas de argumentação. O mesmo ocorria com as letras de seu hinário, ora empregadas como maneira de difundir suas idéias, ora como um recurso para assegurar o predomínio de sua palavra, ao se exigir silêncio na sua execução. A própria linguagem poética encontrada nas letras de seus hinos também servia para reforçar a sua ascendência sobre a comunidade, pois ao engendrar múltiplas interpretações, ajudava a apaziguar as diferenças e as divergências de interesses. Na ausência de uma interpretação canônica, cada seguidor teria o direito de atribuir o significado que lhe parecesse o mais justo, sem nunca se sentir em contradição com o líder, “dono” do hinário. (entrevista cedida a antropóloga Arneide Cemim) 
(MOREIRA; MACRAE, 2011, p. 366 e 367)

Veja a parte audível dessa gravação que conseguimos melhorar:

PALESTRA DO MESTRE IRINEU - FRAGMENTO AUDÍVEL - PARTE 2



Referência bibliográfica

MOREIRA, Paulo; MACRAE, Edward. “EU VENHO DE LONGE: Mestre Irineu e seus companheiros”, Salvador, Bahia, EDUFBA, EDUFMA, ABESUP, 2011.



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Comentários
1 Comentários

1 comentários:

  1. Sabedoria natural, o Mestre Irineu teceu o tapete onde hoje andamos na maciez de seus ensinamentos eque nos anima a novas fronteiras cruzar com a Bandeira do Daime Amor e seguir nessa coragem cujas bases se afirmam no coração de cada daimista!

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