terça-feira, 5 de junho de 2012

UMA ESFINGE AMAZÔNICA Marcos Vinicius

Foto: Flávio Lopes
Sobre o livro: Uma esfinge amazônica - texto de Marcos Vinicius (Secretário de Cultura de Rio Branco Acre em 2010)

Recebi o convite de Paulo e Edward para escrever esta apresentação como um enorme prazer, mas principalmente como um imenso desafio. Afinal, como veremos adiante, a tarefa a que se impuseram estes excepcionais pesquisadores é das mais complexas e difíceis de realizar. E, para que possamos compreender a dimensão e implicações desta complexidade, seria fundamental, já de saída, levar em consideração o lugar a partir do qual estamos falando...
O Acre é um dos mais novos e distantes estados da federação brasileira, um lugar quase escondido no extremo ocidental da Amazônia, na fronteira com a Bolívia e o Peru. Dizer que o Acre, como de resto a própria Amazônia, é muito pouco conhecido ou compreendido pelos brasileiros em geral, seria apenas repetir uma idéia que já se tornou lugar comum no imaginário nacional.
Uma imagem que está na origem das muitas brincadeiras e piadas que circulam no território livre da internet. Como aquela que fez muito sucesso, durante certo período, e afirmava categoricamente que: “O Acre não existe”. O que servia de mote para todo tipo de piadas infames.
Mas o que diferenciaria o Acre tanto assim? Em que medida essas brincadeiras estão mesmo relacionadas apenas à distancia, ao isolamento, ou à qualquer outra característica acreana? Seriam mesmo sinais de que algo mais existe neste estranho e fascinante mundo florestal? 

Curioso constatar que essas mesmas brincadeiras não são tão recorrentes em relação à outras regiões ainda mais distantes dos grandes centros de país. Tais como Roraima ou Amapá, ambos no extremo norte brasileiro. Isso nos faz refletir sobre o fato de que talvez o Acre seja realmente mais difícil de ser conhecido e/ou compreendido do que outras regiões da Amazônia, mesmo que por pesquisadores acostumados a encarar temas ou problemáticas muito complexas.

Sem dúvida foi algo diferente, inusitado, singular, o que atraiu irresistivelmente ao Acre um de nossos maiores escritores, Euclides da Cunha, logo após a publicação e o estrondoso sucesso do grandiloquente “Os Sertões”, sobre a Guerra de Canudos. Algo que o fez buscar espontaneamente sua participação na Comissão Demarcatória de Limites Brasil-Peru, em demanda das distantes e inacessíveis nascentes do rio Purus, arrastando canoa, vencendo a fome, as doenças, a animosidade peruana, subindo e descendo balseiros. Uma marcante experiência que o levou a afirmar, há mais de um século, que o Acre ainda estava “À Margem da História” brasileira. Preparando com isso terreno para seu sonhado, mas não realizado, “segundo livro vingador” e que deveria se chamar “O Paraíso Perdido”.
Olhando sob essa perspectiva, não seriam, então, as piadas e as brincadeiras sobre o Acre, apenas reflexos de temores inconscientes despertados por um lugar que não só é distante e desconhecido, mas que, sobretudo, possui uma aura misteriosa, quase indecifrável e, por isso mesmo, pode parecer, de alguma forma, temível?
Ou não. Poderíamos também ponderar que esse singular estranhamento em relação ao Acre poderia ser apenas reflexo de certo “peso na consciência” nacional. Afinal, várias passagens da história acreana chegam a ser brutais pela evidente recusa, descaso e irresponsabilidade com que o governo brasileiro tratou o Acre em muitas e diferentes ocasiões.
Não devemos ignorar que, ainda durante o auge do Primeiro Ciclo da Borracha , a Bolívia pretendeu dominar o Acre; os ingleses e norte-americanos tentaram arrendar o Acre à Bolívia; o Peru fez um consistente movimento de tomada de boa parte das terras acreanas; ao mesmo tempo em que Manaus e Belém brigavam entre si pela posse e comercialização da borracha acreana. Enquanto o governo brasileiro a tudo assistia inerte, ausente. 

E pior. Mesmo quando os “brasileiros do Acre” pegaram em armas, por conta e risco próprios, e proclamaram a criação do “Estado Independente do Acre” , como estratégia de defesa da soberania nacional nesta região, foi o próprio governo brasileiro que desarmou os revolucionários e, surpreendentemente, devolveu o domínio do Acre para a Bolívia.
É isso que faz com que os acreanos gostem tanto de afirmar que o Acre é o único estado brasileiro por opção. Pois, enquanto Bahia, Rio Grande do Sul, São Paulo, entre outros, lutaram em diferentes momentos de nossa história para se separar do Brasil. O Acre lutou, com imensos sacrifícios, para ser anexado ao nosso país, em um exemplo de sentimento nacional muito raro entre os brasileiros.
Mas mesmo isso pareceu não ser o bastante para o Brasil. Já que, como prêmio aos acreanos por sua luta e conquista, o governo criou, especialmente para o Acre, um regime político esdrúxulo que o tornou o primeiro Território Federal de nossa história. Um sistema político que na prática condenava os acreanos a serem cidadãos de segunda categoria em seu próprio país. O Território era tutelado pelo governo federal não só em relação à arrecadação de impostos sobre sua rica produção em borracha, mas também em relação à escolha de seus governantes, que eram nomeados diretamente pelo Presidente da República desde seu gabinete no Palácio do Catete, à revelia dos anseios acreanos. Um povo recém formado e já submetido a toda sorte de governadores corruptos, autoritários ou, simplesmente, incompetentes.
Entretanto, tamanho prêmio parece ter sido ainda insuficiente para o governo brasileiro. O que ocasionou o singelo hábito de se enviar para o Acre degredados de diferentes origens. Assim, foram mandados ao Acre alguns dos envolvidos na Revolta da Vacina. Mais tarde, também alguns dos insubordinados marinheiros da Revolta da Chibata . E até mesmo ladrões e assassinos comuns, foram trazidos pras florestas acreanas como forma de esvaziar as, já naquela época, superlotadas cadeias cariocas. Mas, o mais sintomático é que estes desterrados, não vinham para esta ou aquela prisão, mas para ser soltos na floresta e, se tudo corresse bem, morrer a mingua.
Para o atual leitor que pode estar achando isso tudo certo exagero de minha parte, talvez seja esclarecedor saber que este costume do governo brasileiro, no início do século XX, se tornou tão comum e corrente que deu origem a uma expressão popular que usava o termo “Ir para o Acre” como sinônimo de “morrer”. Imaginem a cena:
- Cadê fulano? 

- Ih! Rapaz! Esse foi pro Acre!
- Coitado! Tão Jovem. Que Deus o tenha.
E não faz muito tempo que esse verbete foi retirado do Dicionário Aurélio porque havia caído em desuso. Ao que tudo indica, portanto, talvez haja realmente algo mais por trás das brincadeiras de mau gosto que são rotineiramente espalhadas pela internet e povoam o imaginário nacional. Acredito mesmo que há no Acre algo diferenciado, especial, misterioso, singular que inspira o mais absoluto medo em alguns, ao mesmo tempo em que induz muitos outros ao mais completo fascínio e encantamento. O Acre não admite, neste sentido, meios termos. Tanto assim que, em minha coluna semanal em jornal local, publiquei, certa vez, uma série de artigos denominados “A Esfinge Acreana”, com o subtítulo: “Decifra-me ou devoro-te”, numa referencia à famosa Esfinge de Gizé, no qual procurei tratar de diversos aspectos singulares e, ao mesmo tempo, enigmáticos da cultura acreana.
Pois bem, toda essa longa digressão inicial sobre as singularidades da história e do ser acreano, foi feita apenas para explicar porque, no dia em que conheci os autores deste livro - para o que eu achava que seria só mais uma entrevista comum sobre a história acreana - fiquei muito preocupado ao saber que o tema que os havia trazido até o Acre era a vida de uma das mais significativas e complexas personagens da trajetória acreana: o Mestre Irineu. Não consegui, então, evitar o pensamento: Isso não vai dar certo!
Afinal, se tentar compreender o Acre, já de saída, é um desafio colossal, como espero ter demonstrado acima. O que dizer então sobre a tentativa de sistematizar a história de vida de um homem que foi capaz de criar uma nova e original religião, surpreendentemente originada nos mais profundos confins da floresta amazônica para se espalhar por todo o mundo, mobilizando milhares de pessoas das mais diferentes origens e culturas.
Ou seja, Paulo e Edward, tinham, a meu ver, enormes chances de serem devorados por nossa particular esfinge amazônica. Especialmente levando em consideração que, desde o início de minhas pesquisas sobre a história regional acreana, sempre me chamou a atenção a imensa lacuna de nossa historiografia em relação à trajetória de Raimundo Irineu Serra. 

É certo que, por aqui, muita coisa se conta sobre o Santo Daíme. Ou sobre o enorme negro maranhense que comandava uma comunidade lá pras bandas da Colônia Custódio Freire e tinha fama de curador. Ou, ainda, sobre a relação política que aos poucos foi sendo estabelecida entre as comunidades do Daíme e o Governo do Território/Estado do Acre. Mas, escrito mesmo, em relação à vida do homem que promoveu uma verdadeira revolução espiritual neste pedaço perdido de floresta sem que quase ninguém percebesse, quase nada.
A esse respeito, o que mais me incomodava mesmo era a inexistência de uma história do Mestre Irineu escrita e consolidada, no seio da comunidade que ele próprio formou. Excetuando-se a publicação da Revista do Centenário, que foi em boa parte feita pelo pessoal do Alto Santo, não existe mais nada publicado sobre a vida, as dificuldades, os sucessos e os varadouros percorridos pelo jovem que veio embalado pela febre da borracha do século XIX para, aqui na Amazônia, se deparar com mistérios e possibilidades que nunca teria sido capaz de imaginar.
O que existe, isso sim, é uma vasta bibliografia desenvolvida a partir do novo contexto que envolveu o Santo Daíme desde que este começou a se expandir por outras regiões fora do Acre e da Amazônia. O que só aconteceu efetivamente após a morte de Irineu. Mas não custa ressaltar que são publicações e abordagens que não são aceitas ou difundidas, sendo muitas vezes repudiadas, pelos tradicionais seguidores de Mestre Irineu.
Por isso, quando, há cerca de dez anos, estive no Maranhão, participando de um encontro promovido pela Fundação Palmares. Além, é claro, de me render ao natural encanto provocado pela antiga e fascinante Ilha de São Luis. Fui tomado pelo impulso avassalador de procurar os caminhos por onde Raimundo Irineu Serra teria passado antes de vir para o Acre.
E, mesmo não estando ali pra isso, logo após o término do encontro do qual estava participando, visitei a Casa das Minas, as ruas do velho centro histórico de São Luis, com suas fontes públicas e túneis subterrâneos. Mas, como o instinto do pesquisador às vezes se torna mesmo irresistível, consegui apoio do governo estadual para ir até São Vicente de Ferre, onde havia nascido Irineu no final do século XIX.

Lá conheci o lugar vazio onde antes havia uma tapera de adobe e palha, na qual, segundo os moradores locais, teria nascido Irineu. Encontrei com um sobrinho de Irineu que conhecia bem a história do jovem que partiu pra ganhar o mundo e voltou como um homem feito dono do mundo, importante líder uma comunidade. Fui ao pequeno e improvisado arquivo da paróquia da cidade e encontrei o registro de batismos onde fui surpreendido por uma informação nova. Ao invés de nascido em 1892, como difundido no Alto Santo e por todos seus demais seguidores, constava que Irineu havia nascido em 1890.
Esta, portanto, deveria ser uma informação importante para toda a comunidade daimista. Trouxe, então, a fotografia do registro onde constavam os nomes do pai e da mãe de Irineu, ou seja, sem margem a duvida. E, assim que cheguei, fui ao Alto Santo dar conta à Madrinha Peregrina do que havia encontrado. Ao que ouvi surpreso. “Que Bom! Você encontrou um documento sobre Mestre Irineu. Mas, se ele disse pra todos nós aqui que nasceu em 1892, então nasceu em 1892 mesmo. Obrigada.”
Desde então a breve história acima descrita encerra para mim o paradigma, ou paradoxo, instalado na comunidade fundada por Mestre Irineu. Uma comunidade formada por uma poderosa e marcada tradição oral. Tão forte a ponto de, em grande medida, dispensar o valor histórico de qualquer documento formal e não sentir a menor necessidade de ter a história formal de seu Mestre escrita. Não por mera recusa ou dogmatismo. Apenas porque, no caso da vida de Mestre Irineu, ela é tão metafórica quanto existencial, tão mítica quanto histórica - tão inerente ao cotidiano, à cultura local, e, ao mesmo tempo, ao universo do extraordinário e do religioso - que torna qualquer outro tipo de explicação insuficiente ou dispensável.
Esta característica empresta qualidades específicas ao trabalho histórico ou antropológico junto ao Alto Santo e outras comunidades ayahuasqueiras, como passamos a chamar ultimamente. Teremos que levar em consideração coletividades cujas memórias sociais não tem compromisso com a história, no sentido ocidental do termo, mas apenas com a seleção de certos acontecimentos relevantes para a definição, organização e continuidade da comunidade religiosa.
Sem descuidar do fato de que o movimento espiritual, cultural e social à que deu origem Irineu, junto com outros homens como Daniel Mattos e Gabriel Costa , se espalhou desde então por áreas da política, das instituições publicas e privadas, pelo campo artístico, simbólico e estéticos integrantes do Acre do século XX, e, por conseguinte, também do nosso próprio mundo pós-moderno. 

Por outro lado, em certas passagens deste livro seus autores se confrontam com questões relacionadas ao contexto político acreano. Momentos sobre os quais a aplicação de parâmetros gerais da história política brasileira ao caso do Acre e à atuação de Irineu junto às lideranças políticas locais, pode parecer extraordinariamente tentador. Porém, no Acre não existe direita, centro, esquerda; neo-liberais, democratas ou socialistas da forma como nos acostumamos a pensar em relação ao Brasil.
Por força de seu contexto político diferenciado, como Território Federal que se tornara desde 1904, os acreanos não tinham direitos políticos que os possibilitassem ter partidos e disputas eleitorais que definissem e consolidassem espectros ideológicos claramente definidos.
Daí, por exemplo, porque a Legião Autonomista que originou o PTB local e que teoricamente representava setores mais populares e “autonomistas” da sociedade, foi contra o projeto que transformava o Território Federal em Estado Autônomo, ao final dos anos 50. Ao passo, que o PSD, originado do antigo Partido Construtor e, portanto, pelo menos teoricamente, mais conservador, elitista e favorável às políticas do governo federal, foi quem levantou e defendeu o movimento que resultou na tardia criação do Estado do Acre, em 1962 .
Da mesma forma não se pode transformar a amizade de Mestre Irineu com o Cel. Fontenele de Castro e com o Governador Guiomard Santos, lideres maiores do PSD acreano, que após 1964 seria transformado na Arena, em um possível apoio político à Ditadura Militar. Esta tentativa pode não ser mais do que uma extrapolação de inexistentes composições políticas e sociais do contexto acreano. Ao passo que se constitui num dos temas mais importantes do trabalho desenvolvido neste livro.
Na verdade, as relações de Mestre Irineu com Fontenele e Guiomard eram muito mais pessoais, corporativas e até mesmo afetivas, do que propriamente políticas. O apoio político de Fontenele e Guiomard, em seu caráter de elite governante, foi o que possibilitou certa distensão de muitos dos preconceitos da sociedade acreana em geral ao uso religioso do Daíme. Daí que um apoio eleitoral de Irineu a eles era também natural, permanente e independente de qualquer mudança conjuntural no longínquo Brasil. 

Até porque os vinte anos de Ditadura Militar foram, aqui no Acre, em grande medida, simplesmente de continuidade do autoritarismo e do regime de exceção até então vigente. Aqui no Acre a democracia ainda não havia chegado mesmo, a não ser pelo breve período de 1962-64. Importante não esquecer, portanto, que não podemos interpretar a história política do Acre no período militar sob os mesmos parâmetros que aplicamos para o restante do país. Apenas mais uma das inúmeras armadilhas da esfinge acreana.
Daí o desafio imenso a que se propuseram Paulo e Edward ao pretender, e conseguir, reunir documentos, depoimentos e eventos significativos na trajetória deste personagem histórico tão singular que foi Mestre Irineu. Por que esse trabalho tem o potencial de ressignificar não só a formação do Acre, mas de imensas áreas até então invisíveis da própria história brasileira.
Com estes exemplos postos, devemos voltar então às nossas questões iniciais para começar a concluir esta já muito longa apresentação. Afinal, em que outro lugar do Brasil, índios, negros e caboclos brasileiros e estrangeiros conseguiram interagir a ponto de dar origem a uma nova manifestação religiosa, totalmente original? O advento do Santo Daíme já é, por si só, um acontecimento extraordinário. Surgiu da floresta, de uma cultura gestada a partir do conhecimento e da vivencia na floresta e seguiu expressando suas sínteses mesmo quando transportada para um meio urbano, em grande medida, sem ceder às manipulações e forças de mercado.

Tanto assim que, atualmente, a produção de novos trabalhos relacionados à Ayahuasca assumiu uma outra característica. Ela perdeu certa predominância de títulos com abordagem esotérica, mágica ou literária dos anos setenta aos noventa. E se tornou profusamente fértil em textos e trabalhos acadêmicos, nas mais distintas áreas do conhecimento. Aspectos legais, antropológicos, bioquímicos, terapêuticos, políticos, ganharam relevo em contraposição àquelas publicações de circulação mais restrita e que dizem respeito às questões doutrinárias/religiosas que eram a maioria nos anos 80 e parte dos 90.
Entretanto, faltava uma base sólida para boa parte dessa produção, considerando-se que Mestre Irineu tem papel fundante em suas diversas novas configurações. Este livro é esta base que faltava. Por que esta situada em sua origem. No ponto de passagem de uma tradição indígena para uma tradição cristã. Ponto de convergência, de mutação, de transformação, sintetizada através de uma vida humana, um personagem que se tornou catalisador de um conjunto de referencias culturais.
Discutimos hoje o reconhecimento , por parte do Ministério da Cultura, do uso da Ayahuasca - Daíme, Vegetal, Kamarãpi, Huni, ou como se queira chamá-lo - como expressão cultural plena e inerente ao povo brasileiro. Ou seja, uma nova compreensão de que estas práticas culturais não podem ser simplesmente rotuladas como uma questão de saúde pública, de legislação anti-drogas, ou mesmo de dogmas religiosos. O uso do Daíme é hoje, mais evidentemente do que nunca, uma problemática histórica e cultural em seu sentido mais amplo e profundo. E não se muda, proíbe ou promove expressões culturais com decretos ou testes de laboratório.
As muitas manifestações culturais relacionadas ao Daíme são, neste sentido, tão complexas, intrigantes, misteriosas e relevantes, que se parecem com o próprio Acre, tão desafiador quanto, às vezes, ameaçador. A força que parece emanar deste pedaço da floresta, tem espírito próprio e não pode ser aprisionado por parâmetros rápidos ou superficiais. Uma força que está em gestação ainda e, aqui e acolá, revela focos muito evidentes de um tipo de luz transformadora.
Talvez por isso o Acre tenha sido ao longo de sua breve história e, ainda seja, terreno fértil para tantos homens e mulheres diferenciados. Já que em todos os rios acreanos se multiplicaram histórias de seres humanos que se tornaram extraordinários por sua espiritualidade e foram responsáveis por inúmeras curas e milagres que são atestadas pela cultura popular acreana. Seja o São João do Guarani, um seringueiro que morreu debaixo de maus tratos; seja a Santa Raimunda do Bom Sucesso, uma índia Jaminawa; ou o Irmão José da Cruz, que por muitos anos percorreu os rios do Vale do Juruá pregando e curando; entre tantos outros personagens que parecem cumprir a risca o que Euclides da Cunha escreveu sobre sua longa odisséia acreana: "Quando nos vamos pelos sertões em fora, num reconhecimento penoso, verificamos, encantados, que só podemos caminhar na terra como os sonhadores e os iluminados.” 

Quem poderia dizer que neste pedaço esquecido, desprezado, ignorado de floresta um dia iria surgir um líder espiritual da estatura de Mestre Irineu. Da mesma forma que ninguém poderia imaginar que daqui, das distantes florestas acreanas, surgiria também um líder popular e mundialmente significativo como Chico Mendes. Ambos coincidentemente nascidos em 15 de dezembro.
O que há, enfim, de tão diferente no Acre? Não sei dizer. Posso adiantar somente que Paulo e Edward com sua importante pesquisa, agora materializada neste belo e instigante livro, dão uma enorme e inequívoca contribuição para qualquer um que se proponha a, ao menos tentar, desvendar a fascinante esfinge acreana.
Por isso, durante a leitura das páginas que se seguem, lembrem-se! Nós que vivemos nesta extraordinária região da Amazônia Ocidental, sabemos, sem nenhuma margem à duvida, que, diferente do que possa parecer à primeira vista, o Acre não é o fim do mundo, mas sim o início dele.


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